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Mostrando postagens de fevereiro, 2026

Recortes de Página: México 2010: a militarização do Estado, a fragmentação dos cartéis e o preço humano de uma guerra sem vitória

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2010 — A Guerra às Drogas e o México à beira do abismo Em março de 2010, quando o Estadão publicou o artigo de Jorge Castañeda reconhecendo o “fracasso” da guerra às drogas no México, o país já acumulava mais de 25 mil mortos,  em números oficiais,  em pouco mais de três anos de ofensiva militar contra os cartéis. A promessa de restaurar a ordem havia se transformado em um ciclo de violência crescente. O que começou como uma estratégia de afirmação política tornou-se um experimento de militarização com o  Exército assumindo funções policiais sem que houvesse: • Reforma profunda das polícias locais; • Combate estrutural à corrupção; • Reorganização do sistema judicial. Mesmo após mais de 3 anos de operações militares, o Estado mexicano continuava incapaz de exercer plenamente sua autoridade em vastas regiões, enquanto a violência e o poder dos cartéis persistiam em níveis alarmantes. Outro dilema era dependência contínua das Forças Armadas:  como retirar o...

Recortes de Página: 1989 - Flint, o espelho da hegemonia perdida: "Roger & Me" e a desindustrialização que reinventou o mundo”

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“Bom para a GM, mas nem tanto, para os EUA."  A matéria do Estadão de 1990 é uma cápsula do tempo sobre o início do debate público a respeito da desindustrialização americana. Em 11 de janeiro de 1990, o Caderno 2 do O Estado de S. Paulo destacava o documentário Roger & Me (1989), dirigido por Michael Moore. À primeira vista, tratava-se de uma produção irreverente, quase satírica. Mas, na essência, o filme expunha uma ferida aberta: o colapso econômico e social de Flint, berço da General Motors. Michael Moore inaugurou, com Roger & Me, um modelo de documentário político que combina: • humor ácido; • participação direta do diretor; • montagem irônica; • exposição pública de elites corporativas. A matéria ressalta o estilo irônico de Michael Moore. Ele tenta entrevistar Roger Smith, então CEO da GM, em uma busca quase quixotesca — o que explica o subtítulo do Estadão: “O Dom Quixote do Michigan”. Mas por trás do humor está um recurso poderoso: a human...

Recortes de Página: 1990 - Invasões de terra, militância organizada e o embrião de um projeto de poder na Nova República

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Na edição de 27 de julho de 1990 do  jornal Estadão estampava uma manchete que hoje parece quase premonitória: a Polícia Federal abria inquérito para investigar a organização de invasões de terra. O pedido partia do então ministro da Agricultura do governo  Collor, Antônio  Cabrera, que alegava haver indícios de coordenação política por trás das ocupações. Uma o rquestração estruturada, com envolvimento de quadros partidários e sindicais, inclusive profissionais liberais e dirigentes urbanos que não se enquadrariam no perfil tradicional de trabalhadores rurais sem-terra. Tais ações tinham com finalidade  a ascensão política destes grupos organizados. Essa acusação deslocava o debate da esfera social para a esfera político-eleitoral. Não se tratava apenas de conflito agrário. A matéria sugeria algo mais profundo: a possível articulação entre movimentos sociais, sindicatos e estruturas partidárias. À luz do tempo, o episódio revela mais do que um embate rur...

Recortes de Página: Quando a poesia virou crime: o Caso Padilla e o drama da dissidência cubana

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Na edição de 27 de maio de 1971, o Estadão noticiava o drama envolvendo um casal de intelectuais cubanos submetidos à perseguição política em Havana. O tom da matéria era direto, mas por trás das linhas impressas estava um dos episódios mais emblemáticos da repressão cultural no regime de Fidel Castro. Tratava-se do poeta Heberto Padilla e de sua esposa, a escritora Belkis Cuza Malé. O episódio ficaria conhecido internacionalmente como o "Caso Padilla" — e marcaria uma ruptura decisiva entre a Revolução Cubana e parte significativa da intelectualidade latino-americana e europeia que até então simpatizava com o regime. A prisão Em março de 1971, Padilla foi preso pela Segurança do Estado. Permaneceu detido por cerca de 38 dias. Durante esse período, segundo relatos posteriores, foi submetido a interrogatórios intensos, isolamento e pressão psicológica. Mas o regime não se contentou com o silêncio. Queria um espetáculo. Em abril de 1971, Padilla foi levado à sede da...

Recortes de Página: A Ponte Rio–Niterói em 1971: a obra monumental, a tentativa de CPI e os silêncios da ditadura

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Na edição de 27 de maio de 1971, O Estado de S. Paulo registrava tensões em torno da construção da Ponte Rio–Niterói — então apresentada pelo governo militar como a maior obra de engenharia da América Latina. O tom da matéria refletia o momento político: a ponte era símbolo de progresso, integração nacional e modernização. Mas já havia questionamentos sobre: • aumento expressivo de custos; • mudanças técnicas no projeto original; • denúncias de irregularidades administrativas; • e acidentes de trabalho durante a construção. O que o recorte revela, nas entrelinhas, é o embate entre propaganda desenvolvimentista e fiscalização parlamentar em um contexto de regime autoritário. A “Obra do Século” e o contexto político A construção começou oficialmente em 1969, durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici, dentro da lógica do chamado “milagre econômico”. A ponte foi concebida para: • integrar a capital fluminense (então recém-transformada em estado da Guanabara e poster...

Recortes de Página: Houston,Texas 1973: quando o horror revelou as falhas invisíveis da ordem urbana americana

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Na edição de 14 de agosto de 1973, leitores brasileiros se depararam, nas páginas internacionais do Estadão, com uma notícia perturbadora: a polícia de Houston havia encontrado mais vítimas do até então maior  abusador e  assassino sexual em série da América. O nome já começava a circular com peso inédito: Dean Corll. O texto é seco, quase burocrático. Não há sensacionalismo. Ainda assim, o impacto é profundo. O número de vítimas — ao menos 27 jovens — colocava o caso entre os maiores massacres individuais da história criminal dos Estados Unidos até então. Mais perturbador que a cifra, porém, era a constatação implícita: os crimes ocorreram ao longo de três anos, quando muitos familiares das vítimas de Dean Corll receberam pouca atenção ou ajuda efetiva do Departamento de Polícia de Houston.   O  que o caso Corll expôs não foi apenas um criminoso, mas um vazio institucional. Embora o nome de Dean Corll já circulasse em investigações policia...

Recortes de Página: 1983 - quando a crise econômica incendiou as ruas de São Paulo

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Na edição de 6 de abril de 1983, O Estado de S. Paulo dedicou páginas inteiras à convulsão que, na véspera, havia tomado bairros centrais, da zona oeste e da zona sul da capital paulista.  Na tarde e noite do dia anterior, São Paulo viveu um dos episódios mais tensos de sua história recente. Saques, depredações, confrontos com a polícia e a tentativa de invasão do Palácio dos Bandeirantes revelaram que a ordem urbana da maior cidade do país estava por um fio. O que os jornais chamaram de “convulsão social” não foi um acidente isolado, mas o resultado previsível de uma crise econômica profunda, prolongada e mal administrada. O fim do milagre e a herança da década de 1970 O quebra-quebra não foi um raio em céu azul. Foi o estalo final de um processo longo, acumulativo e explosivo. A origem do colapso está no esgotamento do modelo econômico da ditadura militar. O chamado “milagre brasileiro” (1968–1973) sustentou-se em crescimento acelerado, crédito externo farto e grandes...