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Mostrando postagens de janeiro, 2026

Recortes de Página: Meninos do Contestado — Vozes Centenárias que Testemunham a Maior Rebelião Civil do Brasil

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Na edição de 12 de fevereiro de 2012, o Estadão publicava um Caderno Especial que marcava o centenário de um dos episódios mais trágicos e menos conhecidos da história brasileira: a Guerra do Contestado (1912-1916). Mas diferentemente de outras coberturas históricas, a reportagem "Meninos do Contestado", assinada por Leonencio Nossa (textos) e Celso Júnior (fotos), tinha uma característica singular: ela dava voz aos últimos sobreviventes daquele conflito sangrento. Eram testemunhas vivas de um massacre. Eram crianças quando as tropas do Exército e agentes policiais desembarcaram nos sertões de Santa Catarina e Paraná para combater seus pais, mães, tios e avós que pegaram em facões de pau e velhas espadas farroupilhas e julianas, num movimento contra o projeto de uma ferrovia em suas posses de terra e os desmandos de lideranças emergentes da República, proclamada duas décadas antes. A reportagem apresentava três desses sobreviventes: Maria Trindade, com 105 anos, q...

Recortes de Página: Quando a ‘proteção’ virou apropriação: o fim do SPI e a crise da política indigenista no Brasil (1960-1968)

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A notícia de 09 de abril de 1968 reporta, de forma breve e vaga, indícios de apropriação indevida de “patrimônio indígena” por funcionários do então  extinto Serviço de Proteção ao Indio no estado do Paraná. Para compreender esse tipo de denúncia é preciso voltar alguns anos e olhar para a política indigenista oficial brasileira — uma história complexa de intenções declaradas, fracassos administrativos, corrupção e violência estrutural. O Serviço de Proteção aos Índios (SPI): origem e propósito Criado em 1910 pelo Estado brasileiro, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) tinha, em sua carta-de-intenção, a função de proteger e integrar os povos indígenas ao Estado nacional — substituindo assim a atuação religiosa que havia dominado o período colonial.  Porém, ao longo das décadas, essa intenção oficial sofreu um desgaste profundo: a instituição ficou carente de recursos, envolveu militares e agentes sem preparo, e as relações com as populações indígenas muitas vezes...

Recortes de Página: A Itália sequestrada: violência política, crime organizado e medo social nos anos de chumbo (1969–1978)

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Na edição de 29 de julho de 1975, o Estado de S. Paulo noticiava o 38º sequestro registrado naquele ano na Itália. O dado, aparentemente episódico, revelava algo muito maior: um país mergulhado em uma combinação explosiva de radicalização política, colapso da ordem pública, terrorismo ideológico e criminalidade organizada, fenômeno que ficaria conhecido como anni di piombo — os anos de chumbo, período em que atentados, sequestros, assassinatos políticos e ações armadas passaram a integrar o cotidiano. O sequestro deixava de ser exceção e se tornava método: de pressão política, de financiamento ideológico e, cada vez mais, de confusão deliberada entre militância e crime comum. O sequestro do latifundiário calabrês Raffaele Maiorano não era um caso isolado. Pelo contrário: fazia parte de uma onda contínua de raptos, espalhada do norte industrializado ao sul agrário, que transformou o medo em rotina cotidiana e colocou em xeque a capacidade do Estado italiano de garantir segur...

Recortes de Página: 1968: quando o assassinato de Martin Luther King incendiou os Estados Unidos

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A edição de 9 de abril de 1968 do O Estado de S. Paulo registra o impacto imediato do assassinato do pastor e líder pacifista Martin Luther King Jr., ocorrido quatro dias antes, em Memphis. As manchetes falam em investigações, tropas federais ocupando cidades, estado de insurreição decretado em Maryland e tensão generalizada em Washington. O que a leitura atenta da página revela, porém, vai muito além de um crime político: os iEstados Unidos atravessavam, naquele momento, uma crise social profunda que beirou uma guerra civil não declarada. O assassinato de King não foi apenas a eliminação de uma liderança carismática. Ele funcionou como um estopim, liberando uma energia social acumulada por décadas de segregação racial, desigualdade econômica, violência policial e frustração diante do ritmo lento — e muitas vezes simbólico — das reformas civis. Um país à beira da ruptura Entre os dias 4 e 10 de abril de 1968, mais de 110 cidades norte-americanas registraram protestos violen...

Recortes de Página: 1975: a geada que encerrou o ciclo do café no Norte do Paraná e redesenhou o Brasil agrícola

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Na edição 19 de julho de 1975, O Estado de S. Paulo registrava com sobriedade jornalística aquilo que, na prática, representava um abalo profundo na economia e na vida social do Norte do Paraná: a maior geada em mais de três décadas devastara os cafezais e selava o fim de um ciclo econômico iniciado ainda nos anos 1930. A manchete — “Chega ao fim um ciclo do café no Paraná” — não exagerava. Tratava-se menos de uma crise conjuntural e mais de uma ruptura histórica. Até aquele momento, o Norte do Paraná era a maior região cafeeira do Brasil, responsável por parcela expressiva da produção nacional e integrada de forma orgânica ao mercado internacional. Cidades inteiras haviam surgido, prosperado e se estruturado em torno do café. A geada de 1975, porém, não apenas queimou lavouras: desorganizou um modelo econômico, dissolveu uma sociedade rural e empurrou milhares de pessoas para fora da região. O café como eixo de um projeto regional Desde os anos 1930, o avanço da cafeicultu...

Recortes de Página: Elevado " Presidente Costa e Silva " sob julgamento do tempo: quando a crítica de 1971 se tornou evidência histórica

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“O elevado e a cidade partida: trânsito, vizinhança e sobrevivência urbana no Minhocão” Em 4 de fevereiro de 1971, poucos dias após a inauguração do Elevado Costa e Silva, um engenheiro ousou dizer em voz alta aquilo que muitos apenas murmuravam. Ferdinando Palumbo Targat, então superintendente técnico do Metrô-Rio, classificou o novo elevado paulistano como um absurdo irreversível, um erro de concepção urbana que não resolveria o problema do transporte e ainda agravaria o caos no seu entorno. Cinquenta e cino anos depois, a pergunta é inevitável: ele estava certo? A resposta curta é: sim. A resposta longa — e mais interessante — revela muito sobre São Paulo, sobre o urbanismo autoritário do período militar e sobre como decisões técnicas podem moldar, para o bem ou para o mal, a vida urbana por gerações. O contexto de 1971: crescimento acelerado e soluções apressadas Embora o Elevado Costa e Silva tenha se tornado o símbolo mais visível da São Paulo modernizante dos anos 19...

Descentralizar é meta: o PMDI e a tentativa de conter a explosão urbana de São Paulo (1971)

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Em 04 fevereiro de 1971, O Estado de S. Paulo noticiava a apresentação ao governador Abreu Sodré,  um ambicioso projeto de planejamento: o Plano Metropolitano de Desenvolvimento Integrado (PMDI). Em linguagem técnica e racional, o plano reconhecia algo que já se tornara impossível ignorar — a Grande São Paulo crescia rápido demais, de forma desordenada, socialmente desigual e urbanisticamente insustentável. A palavra-chave era descentralização. O diagnóstico era claro: a metrópole concentrava população, empregos, indústrias, serviços e infraestrutura em um ritmo que ameaçava colapsar mobilidade, saneamento, habitação e qualidade de vida. A solução proposta parecia moderna, quase visionária para os padrões brasileiros da época: impor limites ao crescimento urbano, redistribuir atividades econômicas e induzir o desenvolvimento de outras regiões do Estado. Mas entre o papel e o território, a história seguiria outro caminho. O contexto: milagre econômico e metrópole fora de...

Recortes de Página: Quando o contato era o começo do fim

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Em 13 de outubro de 1977, o Estado de S. Paulo publicou uma breve nota sobre o início da chamada “atração” de indígenas isolados em Rondônia. O texto descreve a atuação de sertanistas, sobrevoos, primeiros sinais de aproximação e a intenção declarada de evitar que os indígenas contraíssem doenças “comumente transmitidas pelos brancos”. À primeira vista, trata-se de uma reportagem técnica, quase burocrática, marcada pelo vocabulário típico da política indigenista da época. No entanto, lida à distância de quase cinco décadas, a notícia revela algo mais profundo: o início de uma pressão irreversível sobre povos isolados, em um território que, poucos anos depois, seria transformado no maior laboratório de colonização interna do Brasil contemporâneo. A “atração” como política de Estado O termo “atração” não era casual. Ele fazia parte da doutrina indigenista oficial do regime militar, herdada do antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e incorporada pela recém-criada Funai. A...