Recortes de Página: 1989 - Flint, o espelho da hegemonia perdida: "Roger & Me" e a desindustrialização que reinventou o mundo”
“Bom para a GM, mas nem tanto, para os EUA."
A matéria do Estadão de 1990 é uma cápsula do tempo sobre o início do debate público a respeito da desindustrialização americana.
Michael Moore inaugurou, com Roger & Me, um modelo de documentário político que combina:
• humor ácido;
• participação direta do diretor;
• montagem irônica;
• exposição pública de elites corporativas.
A matéria ressalta o estilo irônico de Michael Moore. Ele tenta entrevistar Roger Smith, então CEO da GM, em uma busca quase quixotesca — o que explica o subtítulo do Estadão: “O Dom Quixote do Michigan”.
Mas por trás do humor está um recurso poderoso: a humanização das estatísticas.
Em vez de discutir apenas números de demissões, Moore mostra:
• despejos transmitidos ao vivo,
• famílias vendendo coelhos como alternativa de renda,
• eventos festivos surreais promovidos pelas autoridades públicas e a elite local enquanto a cidade colapsava.
O riso desconfortável expõe a fratura moral da nova economia.
O filme custou cerca de US$ 160 mil e arrecadou milhões, tornando-se um marco do cinema independente americano.
Mais do que um ataque à GM, foi uma crítica ao modelo econômico emergente que privilegiava mercados globais em detrimento das comunidades locais.
A reportagem brasileira captava, já naquele momento, algo maior do que um conflito trabalhista. O que estava em jogo não era apenas a falência de uma cidade industrial.
Era o início visível da erosão do modelo que sustentou a hegemonia econômica norte-americana no pós-guerra.
O texto de 1990 já sugeria que o documentário não era apenas uma crítica à GM, mas um retrato da América em transição.
Hoje, olhando retrospectivamente, percebemos que Flint antecipou fenômenos globais:
• precarização do trabalho;
• substituição de empregos industriais por serviços mal remunerados;
• concentração de renda;
• deslocamento produtivo para países com mão de obra mais barata;
• fragilização do tecido comunitário.
Flint foi laboratório do mundo globalizado.
A virada do consumidor: quando a lealdade às “Três Grandes” começou a ruir
Até o final dos anos 1970, o mercado automotivo norte-americano era praticamente um território fechado dominado pelas chamadas “Três Grandes”: General Motors, Ford Motor Company e Chrysler. Durante décadas, essas empresas não apenas venderam carros — venderam identidade nacional, status e pertencimento. O automóvel americano era grande, potente, cromado, símbolo de prosperidade suburbana.
Mas essa hegemonia começou a ser corroída por uma transformação dupla: econômica e cultural.
A crise do petróleo de 1973 e, depois, a de 1979 alteraram profundamente o comportamento do consumidor. Gasolina cara tornou os grandes sedãs e “muscle cars” menos atraentes. Ao mesmo tempo, veículos japoneses, como os da Toyota e da Honda, ofereciam exatamente o oposto do padrão americano tradicional: carros menores, econômicos, duráveis e com menor índice de defeitos.
O consumidor médio começou a fazer uma pergunta que antes parecia impensável:
“Por que pagar mais por um carro que consome mais e quebra mais?”
A década de 1980 consolidou essa mudança. Pesquisas de qualidade passaram a mostrar vantagem consistente das montadoras japonesas em confiabilidade mecânica e eficiência produtiva. A lógica da lealdade nacional cedeu espaço à lógica do custo-benefício. A identidade industrial americana perdeu força diante da racionalidade econômica.
Outro fator decisivo foi a mudança geracional. A geração que cresceu no pós-guerra valorizava potência e ostentação. Já os consumidores dos anos 1980 e 1990 priorizavam eficiência, economia doméstica e menor custo de manutenção. O automóvel deixou de ser exclusivamente símbolo de status e tornou-se cada vez mais um instrumento funcional.
Enquanto isso, as “Três Grandes” demoraram a reagir. Seus modelos compactos iniciais eram, muitas vezes, adaptações apressadas e de qualidade inferior. A estrutura corporativa pesada e os custos trabalhistas elevados dificultavam uma resposta ágil. Quando perceberam a dimensão da mudança cultural, a participação de mercado já estava comprometida.
A partir daí, o fenômeno deixou de ser apenas concorrência externa: tornou-se uma transformação estrutural do mercado interno. O consumidor americano havia mudado — e a indústria não acompanhou na mesma velocidade.
Esse deslocamento de preferência ajuda a entender por que cidades como Flint sofreram tão profundamente. Não foi apenas a decisão executiva de fechar fábricas; foi o resultado de uma perda gradual de competitividade e de sintonia com o próprio público doméstico.
A desindustrialização não começa no porto — começa na garagem do consumidor.
A transferência para o México e a lógica global
Nos anos 1980, a indústria automobilística americana passou a transferir parte da produção para o México, onde:
• os salários eram significativamente menores;
• as regulamentações ambientais eram mais flexíveis;
• os custos operacionais eram reduzidos.
Essa movimentação antecede e prepara o terreno para acordos como o North American Free Trade Agreement (NAFTA), firmado em 1994. O pano de fundo incluía:
• necessidade de reduzir custos;
• concorrência crescente da indústria japonesa que detinha produção uma enxuta (lean manufacturing), maior eficiência energética, melhor controle de qualidade e
custos mais competitivos;
• reorganização global das cadeias produtivas.
Transferir parte da produção para o México tornou-se estratégia competitiva.
O impacto, porém, concentrou-se nas comunidades industriais americanas, que não estavam preparadas para a transição de uma economia manufatureira para uma economia de serviços e tecnologia.
A lógica era clara: competir globalmente exigia reduzir custos.
O efeito colateral foi a erosão da classe média industrial americana.
Cena em que mostra o último dia de funcionamento de uma das unidades industriais da GM em Flint, 1986
Mas aqui está o ponto central. Os Estados Unidos não se prepararam para três mudanças profundas:
1. Competição sistêmica, não apenas comercial, pois acreditaram que vantagem tecnológica e financeira bastariam, subestimando culturas organizacionais disciplinadas e de longo prazo.
2. Erosão da base industrial como risco geopolítico, pois a desindustrialização foi vista como evolução natural para uma economia de serviços.
3. Os EUA abriram mercados esperando reciprocidade liberal. Em vez disso Japão e, posteriormente, a China praticaram:
• protecionismo estratégico;
• política industrial coordenada;
• proteção de setores sensíveis.
Washington apostou que o mercado resolveria.
Tóquio e Pequim apostaram no planejamento.
Quem era Roger Smith?
Roger B. Smith foi presidente e CEO da General Motors entre 1981 e 1990. Representava a nova geração de executivos corporativos orientados pela lógica da reestruturação e da maximização de lucros.
Durante sua gestão:
• a GM fechou diversas fábricas nos EUA;
• investiu fortemente em automação;
• expandiu operações internacionais;
• buscou reduzir custos trabalhistas.
Enquanto a empresa apresentava resultados financeiros robustos, entre 1984 e 1989, milhares de trabalhadores perderam seus empregos.
No documentário Roger & Me, Roger Smith aparece como figura ausente — quase inatingível — símbolo da distância entre o poder corporativo e os trabalhadores afetados.
Flint: A reinvenção frustrada - da prosperidade ao abandono
Autoridades locais tentaram reagir com projetos de revitalização urbana, eventos turísticos, iniciativas culturais. Mas a substituição de milhares de empregos industriais bem remunerados por serviços precários mostrou-se inviável.
A economia baseada na produção foi substituída por uma economia de eventos, consumo e especulação imobiliária — frágil e instável.
O resultado foi a degradação gradual do tecido social.
O fechamento das fábricas em Flint se insere no contexto da reestruturação econômica iniciada nos anos 1980 sob o governo de Ronald Reagan:
• desregulamentação;
• enfraquecimento sindical;
• financeirização da economia;
• globalização das cadeias produtivas.
A lógica passou a ser maximização do valor ao acionista, não estabilidade da comunidade. Consolidou-se um modelo de gestão orientado pelo valor para o acionista e pelo desempenho trimestral. A indústria deixou de ser prioridade estratégica e passou a ser avaliada como variável financeira. O capital tornou-se móvel; as comunidades, não.
Essa dissociação — lucro corporativo versus ruína social — é o eixo moral do documentário.
Durante décadas, Flint foi símbolo da classe média industrial americana. Empregos estáveis, hipotecas pagas, bairros organizados, consumo em expansão. A prosperidade estava ligada diretamente às fábricas da GM. Durante décadas, a GM não era apenas empregadora — era o eixo da identidade coletiva. Quando as fábricas fecharam, não foi apenas renda que se perdeu, mas pertencimento e sentido social.
Quando a empresa anunciou o fechamento de unidades e a transferência de produção para regiões de menor custo, o impacto foi devastador:
• desemprego em massa
• execuções hipotecárias e despejos
• crescimento da criminalidade
• abandono de bairros inteiros
Flint deixou de ser exceção. Tornou-se prenúncio. O que parecia uma tragédia localizada tornou-se, nos anos subsequentes, padrão e fenômeno regional no chamado "Rust Belt"— cinturão industrial que inclui Michigan, Ohio,
Pensilvânia e Indiana, onde se concentravam siderúrgicas, montadoras e indústrias pesadas.
Décadas depois, muitas dessas regiões da chamada “Rust Belt” enfrentariam novos dramas: desemprego estrutural, êxodo populacional, deterioração da infraestrutura urbana e epidemia de opioides que assolaria comunidades sem perspectiva.
Produziriam também:
• ressentimento e polarização política da classe trabalhadora;
• desconfiança das elites corporativas;
• questionamento da globalização.
Todo esse panorama seria decisivo nas eleições americanas, especialmente na vitória de Donald Trump em 2016.
Em 2014, Flint voltou ao noticiário mundial por causa da crise da água contaminada por chumbo — consequência de decisões administrativas para cortar custos.
A cidade que fora berço da indústria automobilística tornou-se exemplo de falência institucional.
Conclusão: o espelho de Flint
O recorte do Estadão de 1990 captava mais do que a crítica de um documentário. Captava um momento de transição histórica.
Flint não foi apenas uma cidade que perdeu fábricas. Foi o retrato antecipado de um deslocamento global de poder econômico.
A desindustrialização revelou que prosperidade não é permanente; depende de estratégia, continuidade produtiva e visão de longo prazo.
Hoje, quando se fala em reindustrialização americana, cadeias estratégicas, semicondutores e inteligência artificial, ecoa a pergunta que Roger & Me deixou no ar: "é possível reconstruir uma nação sem reconstruir sua base produtiva?"
Flint permanece como advertência histórica — e como ponto de reflexão para qualquer sociedade que abandone a produção em favor da especulação.
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