A CRISE BRASILEIRA DE 1979, PARTE 1 - A Queda de Simonsen
A queda do fiador técnico
Agosto de 1979. A inflação acelera. O petróleo encarece novamente. O regime militar anuncia a abertura política. Nos bastidores, a equipe econômica está dividida. Em 10 de agosto, a queda de Mário Henrique Simonsen marca o fim de uma era.
No dia 11 de agosto de 1979, o jornal O Estado de S. Paulo estampou em suas páginas um editorial de tom contundente que capturava o momento de tensão e inflexão política que o Brasil atravessava. Sob o título "O governo escolheu o populismo", o texto analisava a renúncia do ministro-chefe da Secretaria do Planejamento, Mário Henrique Simonsen, durante o governo do general João Baptista Figueiredo, o último presidente do regime militar.
Mais do que um simples registro de uma mudança na equipe econômica, o editorial revelava as entranhas de uma crise política silenciosa, mas profunda: o choque entre duas concepções antagônicas sobre como conduzir o país diante da escalada inflacionária e do desgaste do autoritarismo. De um lado, a figura de Simonsen representava a ortodoxia econômica, a defesa da austeridade e o combate à inflação sem concessões à popularidade. De outro, forças dentro do próprio governo, atentas ao calendário sucessório e aos ventos da "abertura política" lenta e gradual, ensaiavam um discurso de apelo popular, com promessas de ganhos salariais e ataques públicos aos "atravessadores" como sendo os responsáveis pela escalada dos preços.
O episódio, que o jornal não hesitou em classificar como uma "farsa" diante da opinião pública, escancarava um dilema que marcaria a transição democrática brasileira:
"como governar um país em crise sem recorrer ao velho expediente do populismo, e como manter a credibilidade institucional. E quando a verdade é sacrificada em nome da governabilidade?
O jornal, naquela edição, também expôs o constrangimento do governo que, ao mentir sobre a crise ministerial, comprometera sua credibilidade. Na quinta-feira (09), desmentia a renúncia que se confirmaria na sexta (10).
A renúncia agravava a crise de comando e incerteza exatamente no momento em que o país mais precisava de rumo. O processo que culminaria na maxidesvalorização de dezembro de 1979 não foi um acidente. Foi o resultado de um processo de enfraquecimento técnico, político e institucional iniciado meses antes, com a derrota interna da ala ortodoxa do governo.
Este artigo tem como objetivo analisar o contexto, os atores e as consequências desse momento crucial, à luz do editorial do Estadão, compreendendo como a saída de Simonsen não foi apenas uma mudança de ministro, mas o prenúncio de um novo — e arriscado — capítulo na relação entre Estado, economia e sociedade no Brasil.
O início do fim de uma engenharia econômica
Agosto de 1979. Deixava o Ministério do Planejamento um dos cérebros mais sofisticados da engenharia econômica do regime militar: Mário Henrique Simonsen.
A sua saída não foi apenas uma mudança ministerial. Foi o sinal mais visível de que o modelo econômico construído ao longo da década anterior começava a se fragmentar internamente.
Simonsen representava algo que ia além de um cargo: ele havia sido o fiador técnico do PND II (Plano Nacional de Desenvolvimento 1975-1979), um sistema que combinava crescimento acelerado, forte endividamento externo e controle administrado da inflação por meio de indexação e disciplina cambial gradual.
Em março de 1979 assumia a presidência João Figueiredo.
A abertura política estava em curso. A anistia era discutida. O regime precisava administrar a economia sob nova pressão social.
A inflação deixava de ser apenas um número técnico: tornava-se combustível político.
O problema era estrutural:
• O modelo exigia contenção salarial.
• A sociedade exigia recomposição de renda.
• O governo queria estabilidade sem recessão.
Simonsen defendia moderação, ajuste gradual e disciplina fiscal.
Mas cresciam as pressões por políticas mais flexíveis.
A política começava a invadir o território da técnica.
O "Scholar" e o Poder: A Tragédia Política de Mário Henrique Simonsen
"Enquanto o governo escolhia o populismo, Simonsen personificava a austeridade e a competência técnica que estavam sendo deixadas de lado."
Se o editorial "O governo escolheu o populismo" tratava da macroestrutura e das consequências políticas de uma decisão, o texto de Robert Appy mergulha na micro história, na alma do personagem central desse drama: Mário Henrique Simonsen. O autor constrói a narrativa de um homem de idéias em um universo que exigia muito mais do que elas.
1. O Poder das Idéias versus o Poder da Execução:
O texto de Appy é lapidar ao definir a tragédia de Simonsen: "Sua forte personalidade, sua segurança e sua simpatia conquistavam todos os que dele se aproximavam. Contudo, se destacava no plano das idéias, nunca chegou a impor-se no plano da execução." Essa é a tese central do perfil. Simonsen era um intelectual brilhante, um "scholar" (estudioso, acadêmico) que acreditava na força intrínseca das idéias para conquistar os homens e guiar a nação. No entanto, o poder, como Appy observa, "é um ato político que se conquista", não um decreto que se impõe pela lógica.
2. A Ilusão do "Poder Verbal" e dos Poderes Normativos:
O perfil revela a fragilidade da posição de Simonsen no governo Figueiredo. Ele próprio admitia ter apenas um "poder verbal". Sua condição para permanecer no cargo — a separação entre os poderes normativos (formular a política) e os executivos (aplicá-la) — é apontada por Appy como um "grande erro". A análise mostra que, na prática da política, essa separação é uma ficção. No Planalto, ele tinha acesso ao presidente, mas suas idéias eram executadas por "pessoas que tinham aderido a elas sem grande convicção". A reforma administrativa que lhe deu a presidência do Conselho Monetário Nacional foi, nas palavras do autor, um poder que existia "apenas no papel".
3. O Isolamento no Palácio: A Solidão do Técnico em Meio aos Políticos:
O texto descreve um homem solitário em suas convicções. Simonsen é apresentado como uma "voz isolada" desde o governo Geisel, lutando contra a expansão dos gastos públicos e o descontrole monetário. No governo Figueiredo, seu isolamento se agrava diante de uma nova realidade: "numerosos ministros estivessem em campanha eleitoral". Aqui, o perfil toca no mesmo ponto do editorial: a guinada populista. Simonsen, o técnico austero, via-se cercado por ministros com "ambições eleitorais", preocupados em granjear popularidade, não em conter a inflação.
4. O "Serviço" Prestado e a Injustiça:
Robert Appy sugere que Simonsen, mesmo em sua desventura, prestou um serviço ao país: "mostrar como era difícil ter um ministro da Economia no Brasil". A sua saída, para o autor, é injusta. Simonsen é retratado como vítima de ataques injustos (como as acusações de "monetarismo" que nunca praticou) e da própria estrutura de poder que ele não soube — ou não quis — dominar. Ele acreditou que a razão e a técnica seriam suficientes para governar, mas que foi atropelado pela lógica implacável do poder e da política.
Sua lealdade ao presidente Figueiredo e ao projeto de "continuidade da revolução" é destacada, mas também sua pureza quase ingênua: "aceitava a idéia de reabilitar sua imagem como economista desde que recebesse os meios necessários. Apenas se esqueceu que não tinha o gosto do poder".
1974-1979: Os anos de protagonismo e isolamento
Mário Henrique Simonsen foi, sem dúvida, uma das figuras centrais da política econômica brasileira durante a segunda metade da década de 1970. Sua passagem pelos ministérios dos governos Ernesto Geisel e João Baptista Figueiredo, no entanto, ficou marcada por um paradoxo: o imenso prestígio intelectual contrastava com a crescente fragilidade política.
O economista que veio da academia
Carioca, engenheiro e economista formado pela Universidade do Brasil, Simonsen construiu sua reputação como professor e teórico antes de ingressar na vida pública. Foi professor da Fundação Getulio Vargas e da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e suas ideias sobre inflação, desenvolvimento e política monetária tornaram-se referência obrigatória para uma geração de economistas. Sua principal marca era o combate à inflação pelo método gradualista, evitando choques recessivos, mas defendendo austeridade fiscal e controle dos gastos públicos.
No governo Geisel (1974-1978): A voz isolada
Simonsen assumiu o Ministério da Fazenda em março de 1974, em um momento delicado: o primeiro choque do petróleo (1973) havia jogado o mundo em uma crise e o Brasil, que vivia o "milagre econômico", precisava se ajustar à nova realidade. Seu diagnóstico era claro: era necessário desacelerar a economia, conter a demanda e controlar a inflação.
No entanto, sua visão colidia frontalmente com a do presidente Geisel e do ministro da Indústria e Comércio, Severo Gomes, que defendiam a manutenção de altos investimentos estatais e a continuidade do crescimento — a chamada "estratégia do crescimento forçado" . Simonsen tornou-se uma "voz isolada" no governo, alertando para os riscos do descontrole dos gastos públicos e da expansão monetária, mas raramente sendo ouvido ou seguido.
Apesar do isolamento, sua influência teórica permaneceu. Foi dele a concepção do II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), ainda que discordasse de aspectos centrais de sua execução. Ao final do governo Geisel, em 1978, a inflação que recebera em torno de 15% ao ano (considerando os resíduos de 1973) aproximava-se dos 40%, um fracasso que ele próprio reconhecia apenas parcialmente.
No governo Figueiredo (1979): O superministro de papel
Com a posse do general Figueiredo em março de 1979, Simonsen foi convidado a permanecer, mas em uma nova função: ministro-chefe da Secretaria do Planejamento, com status de "superministro" da área econômica. Para aceitar o cargo, impôs condições: queria poderes normativos sobre toda a política econômica e a presidência do Conselho Monetário Nacional. Figueiredo aceitou, mas as condições nunca se concretizaram de fato.
Na prática, Simonsen descobriu que seus poderes existiam "apenas no papel". Enquanto pregava austeridade, via ministros como Antônio Delfim Netto (então na Agricultura) e César Cals (Minas e Energia) articularem medidas expansionistas e de apelo popular. O "scholar" das ideias enfrentava a política real: ministros em campanha eleitoral, o governo preocupado com a popularidade e a inflação que teimava em não ceder.
O legado de um "scholar"
Simonsen deixou o governo em 15 de agosto de 1979, após pouco mais de cinco meses na nova função. Sua saída foi o reconhecimento de que suas ideias, por mais brilhantes que fossem, não tinham força para se impor diante da lógica política que passava a dominar o governo. Injustiçado por uns, admirado por outros, ele voltou à vida privada e acadêmica, mas seu nome permaneceu como símbolo de um tipo de atuação pública que o Brasil via rarear: a do técnico que acreditava que a razão e as ideias seriam suficientes para governar.
A Oposição e a "Queda da Bastilha": Entre a Crítica ao Arbítrio e a Conveniência Política
Esta outra página da edição de 11 de agosto de 1979 revela as reações da oposição (lideranças do MDB, principalmente) à renúncia de Mário Henrique Simonsen. À primeira vista, todos saúdam o episódio como uma vitória contra o modelo econômico do regime. Mas por trás das palavras há uma coreografia política que revela muito mais do que a simples crítica à política econômica.
A oposição comemora a saída de Simonsen como se ela fosse, em si mesma, uma vitória popular. Mas, na prática, a renúncia agravava a crise de comando e incerteza exatamente no momento em que o país mais precisava de rumo.
1. Ulysses Guimarães e a "Queda da Bastilha": O Simbolismo da Ruptura
A declaração mais contundente é a de Ulysses Guimarães, presidente nacional do MDB. Ao comparar a renúncia de Simonsen à Queda da Bastilha (evento-símbolo do início da Revolução Francesa), Ulysses não está apenas celebrando a saída de um ministro. Ele está investindo o episódio de um significado histórico: a Bastilha representava o absolutismo, a opressão; sua queda simbolizou a vitória do povo contra o arbítrio.
Ao transportar essa imagem para o Brasil de 1979, Ulysses sugere que a saída de Simonsen representa o início do fim do modelo econômico do regime militar, que ele classifica como "perverso e esfarrapador do povo brasileiro". Para Ulysses, a renúncia não é um fato administrativo, mas um marco simbólico de ruptura.
No entanto, há uma camada mais profunda. Ulysses afirma que "não se pode combater o câncer receitando-se cigarros" e que o erro de Figueiredo foi chamar "justamente os que tornam responsáveis por esta crise". Ou seja: a saída de um Simonsen não basta; seria preciso mudar todo o governo. Na mesma linha discursoria o deputado Robson Marinho sugere "demissão coletiva". Essa radicalização do discurso atendia perfeitamente aos interesses eleitorais do MDB: quanto pior a situação, quanto mais desgastado o governo, maiores as chances da oposição nas eleições futuras. A crise era combustível político e radicalizá-la no discurso forçaria uma ruptura maior, enfraquecendo ainda mais o governo.
2. Tancredo Neves e a "Responsabilidade do Modelo": A Isenção do Ministro
Tancredo Neves, com sua habitual habilidade política, adota um tom aparentemente mais moderado, mas igualmente conveniente. Ele afirma que Simonsen "não pode ser responsabilizado pelo desastre econômico e social", pois este decorre do "modelo econômico exíguo adotado para o norteamento da nossa economia", um modelo que seria "o mais forte resíduo e relicário do arbítrio".
Aqui, Tancredo faz uma jogada política brilhante:
· Ao isentar Simonsen, ele humaniza a figura do ministro e evita que a opinião pública o veja como um vilão. Isso é útil para um político que, no futuro, precisaria dialogar com setores empresariais e técnicos que admiravam Simonsen.
O que une todos esses discursos? Nenhum deles propõe uma solução concreta para a inflação de 50%. Nenhum oferece um plano alternativo. A preocupação central não é "como resolver a crise econômica", mas "como capitalizar politicamente a crise".
O que estava em jogo, para a oposição, era acelerar a transição democrática, mesmo que às custas do agravamento da crise econômica. Para o governo, era sobreviver politicamente, mesmo que às custas da ortodoxia econômica. E para o povo brasileiro, restava a inflação de 50% e a certeza de que, entre o populismo e a demagogia, a verdade era sempre a primeira vítima.
O Empresariado entre o Lamento e a Realidade
O empresariado, que seria o primeiro a sofrer as consequências de uma inflação descontrolada, via com apreensão o fim da era Simonsen e a ascensão de um modelo que privilegiaria o curto prazo e a popularidade em detrimento do ajuste fiscal e do combate consistente à inflação.
Esta edição revela um empresariado dividido entre o lamento pela saída de um técnico respeitado e a aceitação pragmática de que os ventos políticos sopravam noutra direção. Diferentemente da oposição política, que comemorava, os industriais expressavam preocupação com os rumos da economia: inflação, dívida externa, descoordenação ministerial. As lideranças empresariais que enxergavam no episódio não uma vitória, mas um sinal de alarme sobre o futuro da economia brasileira.
1. Einar Kok e a Metáfora Musical: O Concerto que Desafinou
A declaração mais criativa e reveladora é a de Einar Kok, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas. Sua metáfora musical é precisa e carregada de significado:
"Os músicos monetaristas tocaram mais graves, enquanto os desenvolvimentistas tocaram mais alto, desafinando o concerto"
O diagnóstico de Kok é sombrio: com a saída do maestro, a "corrente desenvolvimentista" será favorecida, e o resultado será "inflação disparada e dívida crescente". O combate à inflação, alerta, ficará em segundo plano. Sua conclusão é lapidar: "A saída de Mário Simonsen serve como termômetro: demonstra o quanto está quente o clima de discordância entre os Ministérios."
2. José Mindlin: A Perplexidade e a Questão do Comando
José Mindlin, um dos mais respeitados industriais brasileiros, expressa perplexidade com o "desfecho tão radical".
Ele sugere que a saída de Simonsen "esconde sérias divergências" , pois, se o governo realmente quisesse mantê-lo, não teria aceitado sua demissão tão facilmente,
observando também a descoordenação da política econômica e a falta de uma autoridade central capaz de impor coerência às diferentes pastas.
3. Dilson Funaro: A Austeridade no Regime Autoritário e a Dificuldade na Abertura
Dilson Funaro, vice-presidente da Fiesp, oferece uma análise política ainda mais aguda. Para ele, Simonsen tivera mais sucesso no governo Geisel porque, naquela época, "vivíamos num regime autoritário". Agora, com Figueiredo e o processo de abertura, "isto se tornou mais difícil".
Essa observação é fundamental: a austeridade econômica é mais fácil de impor em regimes fechados. A abertura política, ainda que lenta e gradual, trazia consigo a necessidade de popularidade, de concessões, de diálogo com setores organizados. Simonsen, o técnico, era um peixe fora d'água nesse novo ambiente.
Funaro defende uma reformulação do sistema financeiro como instrumento de combate à inflação, sugerindo que os problemas eram estruturais, não apenas conjunturais.
4. Theobaldo De Nigris (Fiesp): O Ajuste Necessário
O presidente da Fiesp, Theobaldo De Nigris, adota um tom mais pragmático. Para ele, a demissão "não constitui surpresa", pois a condução da política econômica "não vinha conciliando a realidade" com a "inevitável alteração das prioridades nacionais".
De Nigris enxerga a saída de Simonsen como um "instrumento político e hábil" para harmonizar a política econômica com as necessidades do momento. Sua fala é a mais "governista" entre os empresários, sugerindo uma compreensão (ou aceitação) da guinada em curso.
A crise em dois atos — O cerco a Simonsen e o terremoto político de agosto de 1979
A saída de Mário Henrique Simonsen do governo Figueiredo, em 10 de agosto de 1979, não foi um episódio isolado de desgaste ministerial. Foi o desfecho de um cerco político cuidadosamente articulado e o estopim de uma crise que atingiu o coração do regime militar em seus múltiplos aspectos. A edição d'O Estado de S. Paulo permite reconstituir o terremoto em três dimensões:
Ato I — O Cerco: A Solidão do Técnico
Nas duas semanas que antecederam a renúncia, Simonsen foi sistematicamente desautorizado por seus próprios colegas de ministério:
• Preços mínimos da agricultura anunciados sem seu aval pelo então ministro da Agricultura, Delfim Netto e perda de controle sobre a política agrícola.
• Medida inflacionária sem seu crivo - aumento do óleo combustível e diesel autorizado pelo presidente atendendo ao ministro César Cals.
• Estímulo à inflação que ele combatia - o Reajuste semestral de salários requerido pelo ministro Murillo Macedo.
• Isolamento político - Críticas do ministro Mário Andreazza ao corte no orçamento social.
• O próprio presidente Figueiredo desautoriza Simonsen pública e explícitamente após anúnciar a revisão de inflação acima de 50% .
O resultado foi um sentimento de rejeição que levou o ministro a abandonar o que a própria reportagem classifica como "missão impossível" : debelar a inflação sem ter nas mãos os instrumentos para tal.
Ato II — O Terremoto: As Dimensões da Crise
A saída de Simonsen produziu abalos em quatro frentes simultâneas:
1. Crise de comando
A metáfora do ex- presidente Castello Branco ("não se muda a parelha de burros quando a carroça está subindo o morro") pairou sobre o episódio. Figueiredo não quis trocar o ministro, mas foi forçado a aceitar sua saída — e a imagem resultante foi a de um governo sem controle sobre sua própria equipe.
2. Crise de credibilidade externa
Os telefones dos gabinetes oficiais não paravam de tocar: banqueiros e financiadores internacionais, que viam em Simonsen um "aval vivo" para suas operações no Brasil, queriam saber quem o substituiria. O risco de desconfiança externa num momento de dependência de capitais estrangeiros era imenso.
Simonsen havia caído, mas a questão central — como combater a inflação sem desorganizar a produção e sem perder popularidade — permanecia de pé, mais insolúvel do que nunca. O "scholar" saía de cena, mas o drama da economia brasileira estava apenas no primeiro ato.
O "Golbery da economia" — A difícil convivência com a abertura
Ao aceitar compor o ministério de Figueiredo, Simonsen imaginou um papel distinto: seria uma espécie de eminência parda da economia, nos moldes do general Golbery do Couto e Silva na política. Por isso, anunciou que não daria mais entrevistas, que se afastaria dos holofotes, que atuaria nos bastidores, "apenas assessorando o presidente".
Para isso, transferiu a linha de frente do combate à inflação para o ministro da Fazenda, Karlos Rischbieter, a quem nomeou publicamente como "o xerife da inflação". A estratégia era clara: Simonsen planejaria; Rischbieter executaria. O primeiro ficaria com as ideias; o segundo, com os desgastes.
O despertar amargo
O sonho durou apenas 60 dias. Simonsen percebeu, com crescente frustração, que Rischbieter não tinha condições de comandar a luta anti-inflacionária: não controlava efetivamente o Banco Central e não conseguia dinamizar a CIP (Comissão Interministerial de Preços). Pior: a opinião pública continuava a responsabilizar Simonsen pela inflação, não o "xerife" que ele próprio nomeara.
O ministro do Planejamento descobriu, da pior forma, que no governo não há divisão de responsabilidades que resista à lógica da política: quem tem o poder das ideias tem também o ônus do fracasso.
Os ventos da abertura
O texto recupera uma declaração profética de Simonsen, ainda em junho de 1978:
"Se abertura política significa irracionalidade econômica, qualquer forma de abertura vai levar a sociedade brasileira a pagar um preço muito elevado."
A frase revela sua concepção: a abertura poderia e deveria ser feita com "maturidade" e "racionalidade econômica". O que Simonsen não antecipou é que a abertura política traz consigo, inevitavelmente, pressões populares, greves, reivindicações salariais e a necessidade de gestos de popularidade — tudo o que sua ortodoxia econômica considerava "irracionalidade".
O primeiro sinal veio com a greve dos metalúrgicos de São Paulo, ainda no governo Geisel. O governo acabou aceitando a negociação direta entre patrões e empregados (proibida por lei) e reajustes acima dos tetos legais. Era o prenúncio de um novo tempo.
A "gota d'água"
Dois eventos selaram o destino de Simonsen:
1. As declarações do próprio Figueiredo, que passou a falar publicamente em uma inflação de 50% para aquele ano. Era a ruína de qualquer pretensão de controle inflacionário vindo do próprio presidente.
2. Os ataques da Arena — o partido do governo — à política econômica, com pedidos explícitos de substituição do ministro. Pior: nem a direção partidária, nem o Palácio do Planalto, saíram em sua defesa.
Simonsen interpretou corretamente o silêncio: estava só. A "gota d'água transbordou o copo".
A carta e a irrevogabilidade
Duas semanas antes de deixar o cargo, Simonsen já apresentara uma carta de demissão a Golbery, mantida em sigilo enquanto o chefe da Casa Civil tentava demovê-lo da ideia. O ministro chegou a se dedicar ao orçamento de 1980 e ao esboço do III PND, parecendo disposto a reconsiderar.
Mas os ataques da Arena, sem qualquer reação do Planalto, esgotaram sua disposição. Na terça-feira(07) a carta foi reapresentada — desta vez, irrevogável. Figueiredo não teve alternativa senão aceitá-la.
CONCLUSÃO — PARTE 1: Agosto de 1979 — O mês em que a ortodoxia perdeu a guerra
A saída de Mário Henrique Simonsen do governo Figueiredo, em 11 de agosto de 1979, não foi uma crise ministerial entre tantas. Foi o marco zero de uma nova era na economia brasileira — e o atestado de óbito de um modelo de gestão que já não encontrava espaço no novo ambiente político que se desenhava.
O que os recortes revelaram
Ao longo desta primeira parte da série, os documentos d'O Estado de S. Paulo permitiram reconstituir, com riqueza de detalhes, as múltiplas camadas da crise:
• A escolha do governo O editorial "O governo escolheu o populismo" denunciou a opção pela popularidade fácil em detrimento da austeridade necessária
• O perfil do ministro Robert Appy traçou o retrato do "scholar" que acreditava no poder das ideias, mas não tinha gosto nem habilidades para o exercício do poder real
• O legado numérico Milano Lopes mostrou o fracasso objetivo: em cinco anos, a inflação saltara de menos de 5% para 50%
• A impopularidade do governo A pesquisa Gallup revelou que Figueiredo governava com apenas 3% de aprovação — pano de fundo para a guinada populista
• A oposição e a hipocrisia Ulysses Guimarães comemorou a "Queda da Bastilha", mas seu interesse real era o desgaste do governo, não a solução da crise
• O empresariado perplexo Einar Kok e a metáfora do concerto desafinado expressaram a preocupação com os rumos da economia
• O cerco final. A sucursal de Brasília detalhou o isolamento de Simonsen, cercado por todos os lados por ministros que o desautorizavam
• A abertura como algoz. O último recorte revelou a percepção de Simonsen: a abertura política era incompatível com sua ortodoxia.
O saldo da crise
Ao final deste primeiro ato, o quadro que se desenhava era sombrio em múltiplas frentes:
• Na economia: a inflação disparava, sem perspectiva de controle, e o modelo ortodoxo saía de cena derrotado
• Na política: o governo mergulhava no populismo como tábua de salvação para a impopularidade
• Na credibilidade: os desmentidos oficiais sobre a renúncia enterraram qualquer pretensão de transparência
• Nas relações externas: os credores internacionais perdiam seu "aval vivo" e a confiança no país se abalava
O que virá
A saída de Simonsen, no entanto, foi apenas o primeiro capítulo de uma história mais longa. O "scholar" deixava o governo, mas os problemas que ele tentara (e fracassara em) resolver permaneciam — e se agravariam.
Nos próximos episódios desta série, veremos:
• Parte 2 — Dezembro de 1979: A maxidesvalorização do cruzeiro, uma medida de choque que tentaria, tardiamente, ajustar as contas externas às custas de mais inflação
• Parte 3 — Janeiro de 1980: A saída de Karlos Rischbieter do Ministério da Fazenda, consumando a virada desenvolvimentista e enterrando de vez os últimos vestígios da era Simonsen
O que agosto de 1979 nos ensinou é que, no Brasil, a economia nunca é apenas economia. Por trás dos números, das taxas e dos índices, há sempre disputas de poder, projetos de país e, sobretudo, escolhas políticas. Simonsen perdeu a guerra em agosto. Mas a batalha decisiva — entre a ortodoxia e o desenvolvimentismo, entre o ajuste e o populismo — estava longe de terminar.
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