Recortes de Página: Meninos do Contestado — Vozes Centenárias que Testemunham a Maior Rebelião Civil do Brasil
Na edição de 12 de fevereiro de 2012, o Estadão publicava um Caderno Especial que marcava o centenário de um dos episódios mais trágicos e menos conhecidos da história brasileira: a Guerra do Contestado (1912-1916). Mas diferentemente de outras coberturas históricas, a reportagem "Meninos do Contestado", assinada por Leonencio Nossa (textos) e Celso Júnior (fotos), tinha uma característica singular: ela dava voz aos últimos sobreviventes daquele conflito sangrento.
Eram testemunhas vivas de um massacre. Eram crianças quando as tropas do Exército e agentes policiais desembarcaram nos sertões de Santa Catarina e Paraná para combater seus pais, mães, tios e avós que pegaram em facões de pau e velhas espadas farroupilhas e julianas, num movimento contra o projeto de uma ferrovia em suas posses de terra e os desmandos de lideranças emergentes da República, proclamada duas décadas antes.
A reportagem apresentava três desses sobreviventes: Maria Trindade, com 105 anos, que dizia: "Passavam crianças famintas na estrada. Muitas morriam"; Sebastiana Medeiros, com 102 anos, que recordava: "Os mortos eram deixados no limpo. Os corvos davam fim"; e Altino Bueno da Silva, com 108 anos, que testemunhava: "Os jaguços tomaram armas dos soldados só com facões de pau".
Essas vozes, que ecoavam cem anos depois, traziam consigo a memória de um conflito que ceifou entre 5 mil e 8 mil vidas — a maior rebelião civil do Brasil no século 20 — e que permanecia, em grande medida, esquecido ou distorcido nos livros de história.
O Contexto: Uma República de Desigualdade e Injustiça
Para compreender a Guerra do Contestado, é necessário entender a conjuntura que a precedeu. A República Velha, proclamada em 1889, havia prometido modernização, progresso e igualdade. Mas na prática, o que se viu foi a consolidação do poder das oligarquias regionais — os coronéis — e a perpetuação da exploração das populações pobres e rurais.
Na região fronteiriça entre Paraná e Santa Catarina, conhecida como "Contestado" (porque sua posse era disputada pelos dois estados), a situação era particularmente grave. A população local era composta majoritariamente por caboclos — pequenos posseiros, trabalhadores rurais, ex-escravizados e seus descendentes — que viviam da extração de erva-mate e madeira, e da agricultura de subsistência.
Esses camponeses não possuíam documentação formal de suas terras. Viviam em posses que ocupavam há gerações, mas que não tinham registro em cartório. Quando a República decidiu modernizar o sul do país através da construção de uma Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (1908-1910), que ligaria São Paulo ao Rio Grande do Sul passando justamente pelo Contestado, o destino daquelas populações foi selado.
A Desapropriação e o Nascimento da Revolta
A construção da ferrovia foi concedida à empresa norte-americana Brazil Railway Company. O governo brasileiro, em seu contrato com a companhia, declarou a região como "devoluta" — ou seja, como se ninguém ocupasse aquelas terras. Isso era uma mentira institucionalizada. Mas a mentira tinha força de lei.
A Brazil Railway Company recebeu do governo 50 quilômetros de cada lado da ferrovia — e iniciou a desapropriação das terras ocupadas há séculos pelos posseiros. Esses camponeses foram expulsos de suas posses sem indenização, sem direito de defesa, sem nada além da ordem de saída.
Paralelamente, a Southern Brazil Lumber & Colonization Company, uma madeireira do mesmo grupo norte-americano , explorava os recursos florestais da região. Quando a ferrovia foi concluída, em 1910, a companhia demitiu centenas de trabalhadores que haviam participado da construção. Formou-se assim um contingente significativo de desempregados, desesperados, sem terras e sem esperança.
Nesse contexto de injustiça e desespero, a religiosidade tornou-se o cimento que uniria os revoltosos. A região tinha uma longa tradição de messianismo — a crença de que um salvador viria para libertar os pobres e oprimidos. Havia histórias sobre monges milagrosos que peregrinavam pela região desde o século XIX, pregando vida comunitária e oferecendo cura aos doentes.
A partir de 1912 com a eclosão do conflito e no decorrer da guerra, os caboclos foram se organizando em redutos — verdadeiras cidades fortificadas que funcionavam como refúgios. Os principais redutos eram Taquaruçu, Caraguatá, Santo Antônio, Caçador Grande, Bom Sossego, Santa Maria (o maior, com mais de 20 mil habitantes), Pedra Branca, São Miguel e São Pedro.
Esses redutos não eram permanentes. Quando atacados pelas tropas federais e pelos vaqueanos, eram destruídos e reconstruídos em outro local. As famílias que os habitavam viviam em constante movimento, fugindo de um lugar para outro, buscando segurança em regiões cada vez mais remotas.
Segundo relatos de sobreviventes coletados por historiadores, muitas famílias passaram anos fugindo, acampando em matas, vivendo em condições precárias. Crianças nasciam durante a fuga. Idosos morriam no caminho. A população se dispersava gradualmente, com grupos pequenos se separando do contingente maior em busca de segurança.
José Maria: O Monge que Liderou a Revolta
Em 1912, apareceu na região um homem que se apresentava como José Maria de Santo Agostinho, um curandeiro de ervas que realizava milagres e pregava uma vida de respeito ao próximo, aos animais e à natureza. Segundo registros policiais, ele era na verdade um soldado desertor condenado por estupro, de nome Miguel Lucena de Boaventura — mas isso pouco importava para a população que o venerava.
José Maria tinha uma capacidade extraordinária de comunicação. Sabia ler e escrever (raro para a época), anotava em cadernos as propriedades medicinais das plantas que encontrava, e oferecia atendimento médico gratuito — sua "farmácia do povo" — até altas horas da noite. Rejeitava ofertas de terras e ouro que coronéis lhe ofereciam, reforçando sua imagem de santidade.
Quando os camponeses expulsos de suas terras procuraram José Maria, ele os acolheu. Sob sua liderança, organizaram uma comunidade baseada em princípios comunitários: tudo pertencia a todos, o comércio convencional foi abolido (apenas trocas eram permitidas), e havia locais de culto e procissões denominados "redutos". José Maria nomeou um fazendeiro analfabeto como "imperador do Brasil", criou uma guarda de honra de 24 cavaleiros chamada "Doze Pares de França" (numa alusão à cavalaria de Carlos Magno), e proclamou a comunidade como "Quadro Santo" — uma "monarquia celeste" que se opunha à república, que ele considerava a "lei do diabo".
O Início da Guerra: A Batalha do Irani
As autoridades republicanas não podiam tolerar esse desafio ao poder estatal. O governo federal, então comandado pelo Marechal Hermes da Fonseca, enviou tropas para reprimir o movimento. Antevendo o confronto, José Maria partiu para a localidade de Irani, que na época pertencia a Palmas, uma cidade na jurisdição do Paraná.
Em 22 de outubro de 1912, a polícia do Paraná atacou. Na batalha do Irani, também conhecida como "Banhado Grande", morreram 11 sertanejos, entre eles o monge José Maria, e 10 soldados, inclusive o coronel João Gualberto Gomes de Sá Filho. Os fiéis de José Maria o enterraram com tábuas — acreditavam que ele ressuscitaria acompanhado de um "exército encantado", o "Exército de São Sebastião", que os ajudaria a derrotar a república.
Mas José Maria não ressuscitou. O que aconteceu foi pior: sua morte transformou-o em mártir e alimentou ainda mais a revolta.
A Escalada da Violência: Redutos e Resistência
Um ano após a morte de José Maria, uma menina de 11 anos chamada Teodora começou a relatar que tinha sonhos com o monge, que lhe ordenava dirigir-se para Taquaruçu. Rapidamente formaram-se outras "cidades santas" ou redutos dos sertanejos: Caraguatá, Santo Antônio, Caçador Grande, Bom Sossego, Santa Maria (que chegou a ter mais de 20 mil habitantes), Pedra Branca, São Miguel e São Pedro.
Esses redutos funcionavam como comunidades autossuficientes, com estrutura militar, religiosa e administrativa própria. Os sertanejos, armados com facões de pau, velhas espadas e algumas armas capturadas de soldados, resistiam ferozmente aos ataques das tropas federais e estaduais.
A guerra que se seguiu foi brutal. Durou quatro anos — de outubro de 1912 a agosto de 1916 — e envolveu centenas de combates, emboscadas, queimadas de aldeias e massacres. O Exército brasileiro, equipado com armas modernas, enfrentava uma população desesperada que lutava pela sobrevivência, pela terra e pela fé.
A Fome e as Epidemias
Um aspecto crucial da fuga durante a guerra era a fome. As tropas federais utilizavam uma estratégia de cerco: cercavam os redutos e impediam o acesso a alimentos. Os caboclos, que viviam da agricultura de subsistência e da extração de recursos naturais, não conseguiam produzir alimento suficiente para alimentar populações tão grandes.
Segundo depoimentos de sobreviventes, havia períodos em que as pessoas comiam apenas raízes, folhas e animais selvagens. Crianças morriam de desnutrição. Mulheres grávidas abortavam por falta de alimento. Idosos sucumbiam à fraqueza.
Além da fome, havia epidemias. A aglomeração de pessoas em condições precárias, a falta de higiene, a ausência de cuidados médicos — tudo isso criava condições ideais para a propagação de doenças. Tifo, disenteria, pneumonia e outras doenças infecciosas matavam tanta gente quanto as balas dos soldados.
Um morador de Taquaruçu, entrevistado décadas depois, descreveu assim a situação: "A força do governo também abertou muito no final. Teve um reduto, que começou a ser bombardeado por canhão, daí todos correram para a igreja, para se proteger. Logo um tiro de canhão atingiu a igreja, que estava lotada de crianças e mulheres. Muitos logo, quase todos morreram, isto eu vi".
Os Vaqueanos: A Força Paramilitar da Desapropriação
Os vaqueanos eram civis armados, capangas de coronéis e empresas, que funcionavam como uma força paramilitar. Não eram soldados regulares do Exército, mas sim homens contratados — frequentemente pobres, desempregados, ex-trabalhadores da ferrovia — para executar tarefas de repressão e violência.
Durante a Guerra do Contestado, os vaqueanos tiveram um papel crucial: não apenas auxiliavam as tropas federais e estaduais, mas frequentemente eram os executores diretos da violência contra os caboclos. Enquanto o Exército fornecia a estrutura militar e a legitimidade estatal, os vaqueanos forneciam a brutalidade local, o conhecimento do terreno, e a capacidade de executar massacres
Os vaqueanos não operavam isoladamente. Funcionavam como uma estrutura paramilitar integrada ao aparato repressivo do Estado. Recebiam ordens dos comandantes militares federais, eram pagos pelo governo (ou pelas empresas em coordenação com o governo), e tinham acesso a armas e suprimentos.
Essa integração entre forças regulares e irregulares era característica da repressão na Guerra do Contestado. O Exército fornecia a legitimidade e a força bruta; os vaqueanos forneciam a flexibilidade e a brutalidade que o Exército não podia exercer abertamente.
Também protegiam as propriedades das empresas colonizadoras contra ataques dos caboclos. A Southern Brazil Lumber and Colonization Company tinha seus próprios vaqueanos, armados e pagos pela empresa, que defendiam as serrarias e os acampamentos contra os redutos.
Alguns vaqueanos, após o término da guerra, tornaram-se eles próprios colonos ou capatazes nas propriedades das empresas colonizadoras. Sua brutalidade durante a guerra era recompensada com posições de poder na nova ordem social que se estabelecia.
Uma mulher, entrevistada décadas depois, descreveu assim sua fuga:
"Quando o reduto foi atacado, meu pai pegou em mim e em meu irmão mais velho e correu para a mata. Minha mãe ficou para trás com meus irmãos menores. Nunca mais a vi. Passei anos procurando por ela, mas nunca encontrei. Não sei se morreu na guerra ou se conseguiu fugir para outro lugar".
O Destino das Terras: De Posseiros a Colonos Estrangeiros
A Desapropriação Inicial:
Quando a Brazil Railway Company recebeu a concessão do que foi considerado pelo governo brasileiro como terras devolutas, mas que já eram ocupadas há séculos - os camponeses não tinham como se defender juridicamente. A lei estava do lado da empresa.
Quando a Guerra do Contestado terminou em 1916, com a derrota dos caboclos e a morte de milhares deles, o caminho estava aberto para a execução de um novo projeto colonizador. As terras que haviam sido disputadas durante quatro anos de conflito sangrento foram finalmente consolidadas nas mãos da Brazil Railway Company e suas subsidiárias.
O Modelo de Colonização:
Mas o que a Brazil Railway faria com essas terras? Aqui entra um aspecto crucial: a empresa não pretendia simplesmente explorar a madeira e construir a ferrovia. Pretendia colonizar a região com imigrantes europeus.
Esse era um projeto deliberado de transformação demográfica. O Brasil da República Velha, influenciado por ideologias racistas que circulavam na Europa e nos EUA, acreditava que a "modernização" do país passava pela substituição da população cabocla (considerada "indolente", "atrasada", "mestiça") por imigrantes europeus (considerados "trabalhadores", "progressistas", "civilizados").
A Brazil Railway Company, através de sua subsidiária Southern Brazil Lumber and Colonization Company (a madeireira), não apenas explorava os recursos naturais da região — as araucárias centenárias e os ervais — mas também criava colônias para receber imigrantes. Esses imigrantes — principalmente italianos, poloneses, alemães e ucranianos — receberiam pequenos lotes de terra, transformando-se em pequenos proprietários.
Esse modelo de colonização tinha um objetivo claro: eliminar a presença dos caboclos e substituí-los por uma população que, embora também fosse pobre, tinha a vantagem de ser "europeia" e, portanto, considerada mais "civilizada" e "progressista" pelas elites brasileiras.
A transformação radical da região
A Southern Brazil Lumber and Colonization Company intensificou a extração de madeira. As araucárias centenárias — árvores que levavam séculos para crescer — foram derrubadas em massa para exportação para a Europa. Essa exploração foi tão intensa que praticamente eliminou as florestas nativas da região. O que era uma floresta exuberante tornou-se, em poucas décadas, uma paisagem desflorestada.
As terras desapropriadas foram divididas em pequenos lotes e vendidas a imigrantes europeus que recebiam condições de pagamento facilitadas e crédito das próprias empresas colonizadoras. Diferentemente dos caboclos, que eram expulsos sem nada, os imigrantes europeus recebiam suporte institucional para se estabelecerem.
Ao longo da ferrovia, surgiram cidades planejadas para receber os colonos. Essas cidades — como Canoinhas, Mafra, Três Barras — tinham uma estrutura urbana que refletia o projeto colonizador: ruas largas, praças, igrejas católicas (para os colonos europeus), escolas. Eram cidades "modernas" comparadas aos redutos messiânicos dos caboclos.
Integração ao Mercado Capitalista:
Os colonos europeus, ao contrário dos caboclos que viviam em grande medida de subsistência, foram integrados ao mercado capitalista. Produziam para vender — madeira, erva-mate, produtos agrícolas — e compravam bens manufaturados. Isso criava um mercado consumidor que beneficiava as empresas colonizadoras e a ferrovia.
O Resultado Final
O resultado final foi uma transformação completa da região. O que havia sido um território de posseiros caboclos, com uma economia baseada na subsistência e na extração tradicional de recursos, tornou-se uma região de colonos europeus, com uma economia capitalista integrada ao mercado internacional.
Cem anos depois, quando o Estadão entrevistou os sobreviventes da Guerra do Contestado em 2012, essas pessoas ainda carregavam as cicatrizes dessa derrota. Maria Trindade, Sebastiana Medeiros e Altino Bueno da Silva haviam vivido para ver a região ser transformada em terras de colonos europeus, em cidades modernas, em propriedades capitalistas.
Mas eles também haviam vivido para testemunhar que aquele mundo que foi destruído — o mundo dos caboclos, dos posseiros, dos redutos messiânicos — havia existido. E que sua destruição não foi inevitável, mas resultado de escolhas políticas, de violência organizada, de um projeto deliberado de transformação territorial.
A Diáspora dos Caboclos — O Destino dos Sobreviventes da Guerra do Contestado
Quando a Guerra do Contestado terminou oficialmente em agosto de 1916, com a destruição do último reduto em São Pedro, o que aconteceu com os sobreviventes? Essa é uma pergunta que a história oficial raramente responde. Os livros de história falam sobre as batalhas, sobre o número de mortos, sobre a "pacificação" da região. Mas falam muito pouco sobre o que ocorreu com as dezenas de milhares de caboclos que conseguiram escapar com vida.
A resposta é complexa e multifacetada: não houve um único destino para os sobreviventes, mas múltiplos caminhos de dispersão, fuga, exílio e marginalização. Essa é a história da diáspora cabocla — o espalhamento forçado de uma população através do território, a fragmentação de comunidades, a dissolução de um modo de vida.
Antes de falar sobre o destino final dos sobreviventes, é importante entender que a diáspora não começou em 1916, quando a guerra terminou. Começou muito antes, durante os quatro anos de conflito, quando famílias inteiras fugiram dos redutos sob
ataque.
Quando a guerra terminou e os redutos foram finalmente destruídos, os sobreviventes se viram diante de uma escolha impossível: permanecer na região do Contestado, onde suas terras haviam sido confiscadas e onde a presença de soldados, vaqueanos e colonos europeus tornava impossível a vida; ou partir para outras regiões em busca de refúgio.
A maioria escolheu partir. Mas para onde?
Um descendente de caboclos do Contestado, entrevistado em 1980, descreveu assim a história de seu avó:
"Meu avó fugiu da guerra no final da guerra aqui pro Oeste com minha avó e dois filhos pequenos. Não tinha nada. Ocupou uma terra devoluta e começou a plantar. Trabalhou a vida toda como peão também, para complementar a renda. Morreu pobre, mas conseguiu dar educação para seus filhos. Meu pai, que era filho dele, conseguiu se estabelecer melhor, mas sempre carregou a história da guerra".
Um dos principais destinos foi o Oeste Catarinense, especialmente a região que viria a ser conhecida como "Velho Chapecó". Essa região, ainda pouco colonizada no início do século XX, oferecia a possibilidade de ocupar terras devolutas e reconstruir um modo de vida baseado na agricultura de subsistência.
Muitas famílias de caboclos sobreviventes migraram para essa região em busca de lugares para viver e fugir da perseguição. Ocupavam terras que não tinham dono registrado, estabeleciam pequenas propriedades, plantavam milho, feijão, mandioca. Reconstruíam, na medida do possível, o modo de vida que haviam perdido no Contestado.
Mas essa migração não foi pacífica. Os caboclos chegavam a uma região que começava a ser colonizada por imigrantes europeus — italianos, poloneses, alemães, ucranianos. Havia conflito entre os dois grupos pelo acesso à terra. Os caboclos, que chegavam primeiro, eram frequentemente expulsos quando os colonos europeus chegavam com títulos de propriedade.
Assim, a diáspora continuava: os caboclos que fugiram do Contestado para o Oeste Catarinense eram novamente expulsos, desta vez pelos colonos europeus. Alguns conseguiam se estabelecer em regiões ainda mais remotas. Outros continuavam migrando, sempre fugindo, sempre buscando um lugar onde pudessem viver.
Migração para o Paraná:
Outro destino importante foi o Paraná, especialmente as regiões fronteiriças e o sudoeste do estado. Muitos caboclos que haviam participado da guerra em territórios que agora pertenciam a Santa Catarina fugiram para o Paraná, onde esperavam encontrar terras devolutas e oportunidades de reconstruir suas vidas.
Alguns desses caboclos se estabeleceram em regiões que, décadas depois, seriam palco de novo conflito pela terra: a Revolta dos Posseiros de 1957. Isso mostra uma continuidade: os caboclos que fugiram do Contestado em 1916 e seus descendentes continuariam lutando pela terra no Paraná, enfrentando novamente as mesmas forças de expulsão e marginalização.
Migração para o Rio Grande do Sul:
Uma terceira rota de migração levou caboclos para o Rio Grande do Sul, especialmente para regiões fronteiriças.
Alguns caboclos conseguiam se estabelecer como pequenos proprietários, especialmente em regiões onde a colonização europeia era menos intensa. Outros não proprietários se estabeleceram em áreas rurais, continuando como pequenos agricultores, se integrando a comunidades já existentes de caboclos e trabalhadores rurais.
Permanência Marginal no Contestado:
Nem todos os sobreviventes conseguiram partir. Alguns permaneceram na região do Contestado, mas em condições de extrema marginalização. Ocupavam terras que não lhes pertenciam, trabalhavam como peões nas propriedades dos colonos europeus, viviam em condições de pobreza extrema.
Esses caboclos que permaneceram se tornaram uma classe de trabalhadores rurais sem terra, vivendo nas margens da sociedade que se estabelecia. Trabalhavam nas serrarias, nas plantações, nas construções — sempre como trabalhadores sem direitos, sempre sujeitos à exploração.
Um aspecto crucial da diáspora era a transformação de identidade que os caboclos sofriam. Antes da guerra, eles eram posseiros — pessoas que ocupavam terras, que tinham um lugar no mundo, que pertenciam a uma comunidade. Durante a guerra, eram guerreiros — participantes de um movimento messiânico, defensores de um modo de vida, lutadores pela terra.
Mas após a derrota, eles se tornavam refugiados, deslocados, marginalizados. Sua identidade de guerreiros era apagada. Sua história era esquecida. Eles se tornavam simplesmente "caboclos" — uma categoria social inferior, associada ao atraso, à ignorância, à primitividez.
O apagamento da memória
Um dos mecanismos mais eficazes de marginalização era o apagamento da memória. A história oficial da Guerra do Contestado, escrita por vencedores, frequentemente minimizava a participação dos caboclos ou os retratava como fanáticos religiosos, não como lutadores pela terra.
Os caboclos que sobreviveram e se dispersaram para outras regiões frequentemente não podiam falar sobre sua participação na guerra. Havia risco de perseguição. Havia vergonha imposta pela sociedade dominante. Havia o desejo de esquecer traumas tão profundos.
Seus filhos iam para escolas onde aprendiam que a Guerra do Contestado era uma rebelião de fanáticos, não uma luta legítima pela terra. Assim, muitas histórias da guerra permaneceram não ditas, guardadas apenas na memória oral das famílias. Avós contavam para netos sobre a guerra, sobre a fuga, sobre a perda de terras. Mas essas histórias não entravam nos livros de história, não eram ensinadas nas escolas, não faziam parte da narrativa oficial.
Mas mesmo esses enfrentavam discriminação. Eram considerados "atrasados", "primitivos", "não civilizados" em comparação com os colonos europeus.
A Memória dos Sobreviventes: Vozes que Ecoam
Quando o Estadão entrevistou os sobreviventes da Guerra do Contestado em 2012, estava capturando as últimas vozes diretas desse período.
Mais de cem anos depois, os descendentes de caboclos do Contestado continuam marginalizados. As consequências dessa dispersão ecoam até hoje.
Cem anos depois, quando o Estadão localizou esses sobreviventes para a reportagem de fevereiro de 2012, o Brasil estava diante de um dilema histórico: como uma nação pode esquecer a maior rebelião civil de seu século 20?
O Legado Esquecido
A reportagem de 12 de fevereiro de 2012 tinha um propósito maior que simplesmente documentar a história. Ela buscava resgatar a memória de um evento que havia sido sistematicamente apagado dos livros de história oficiais. A Guerra do Contestado não era ensinada nas escolas com a mesma ênfase que a Guerra de Canudos ou a Revolução de 1930. Era um episódio incômodo — porque revelava as contradições da República, porque mostrava a brutalidade do Estado contra populações pobres, porque questionava a narrativa de "progresso" que o Brasil tentava construir.
Os sobreviventes que falaram ao Estadão em 2012 eram os últimos elos vivos com aquele passado. Quando eles falecessem — e muitos deles já se foram — a memória direta do conflito desapareceria. Restaria apenas o que estava escrito nos livros, nos arquivos, nos documentos oficiais — e esses documentos frequentemente refletiam a perspectiva dos vencedores, não dos vencidos.
A reportagem "Meninos do Contestado" cumpriu esse papel: garantir que essas vozes não fossem perdidas para sempre no silêncio da história. E ao fazer isso, ofereceu ao Brasil a oportunidade de confrontar seu próprio passado — um passado de injustiça, de violência contra os pobres, de esquecimento sistemático dos vencidos.. Foi um conflito que revelou as contradições fundamentais da República brasileira e que deixou cicatrizes que nunca foram completamente curadas.
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