Descentralizar é meta: o PMDI e a tentativa de conter a explosão urbana de São Paulo (1971)
Em 04 fevereiro de 1971, O Estado de S. Paulo noticiava a apresentação ao governador Abreu Sodré, um ambicioso projeto de planejamento: o Plano Metropolitano de Desenvolvimento Integrado (PMDI). Em linguagem técnica e racional, o plano reconhecia algo que já se tornara impossível ignorar — a Grande São Paulo crescia rápido demais, de forma desordenada, socialmente desigual e urbanisticamente insustentável.
A palavra-chave era descentralização. O diagnóstico era claro: a metrópole concentrava população, empregos, indústrias, serviços e infraestrutura em um ritmo que ameaçava colapsar mobilidade, saneamento, habitação e qualidade de vida. A solução proposta parecia moderna, quase visionária para os padrões brasileiros da época: impor limites ao crescimento urbano, redistribuir atividades econômicas e induzir o desenvolvimento de outras regiões do Estado.
Mas entre o papel e o território, a história seguiria outro caminho.
O contexto: milagre econômico e metrópole fora de controle
O PMDI surge no auge do chamado “milagre econômico” (1968–1973). São Paulo era o principal polo industrial do país e atraía, ano após ano, centenas de milhares de migrantes — do interior paulista, do Nordeste, de Minas Gerais e do Sul.
A expansão era vertiginosa:
• bairros periféricos surgiam sem planejamento;
• favelas se multiplicavam em áreas de risco;
• o sistema viário não acompanhava o crescimento;
• rios eram canalizados, retificados ou simplesmente soterrados;
• o transporte coletivo já dava sinais de saturação.
O regime militar, apesar de autoritário, tinha forte apreço por planos, diagnósticos e tecnocracia. O PMDI refletia esse espírito: mapear a metrópole, racionalizar usos do solo, prever fluxos populacionais e planejar o futuro urbano como um sistema integrado.
O que o PMDI propunha
Entre seus eixos centrais, destacavam-se:
• onter a expansão horizontal desordenada da Grande São Paulo;
• descentralizar indústrias e serviços, estimulando sua migração para o interior;
• criar polos regionais de desenvolvimento (Campinas, Sorocaba, Vale do Paraíba, Baixada Santista);
• integrar planejamento urbano, transporte, habitação e saneamento;
• fortalecer a coordenação entre Estado e municípios, reduzindo decisões isoladas.
No discurso oficial, tratava-se de evitar que a região metropolitana de São Paulo se tornasse ingovernável — um risco que, ironicamente, o próprio plano já admitia como iminente.
O que de fato saiu do papel
Alguns elementos do PMDI foram parcialmente implementados, mas de forma fragmentada e desigual:
• houve forte investimento em infraestrutura rodoviária, facilitando a interiorização industrial (rodovias como Anhanguera, Bandeirantes, Castelo Branco);
Cidades como Campinas e São José dos Campos cresceram como polos tecnológicos e industriais;
• o Metrô de São Paulo começou a ser implantado, ainda que tardiamente frente à explosão urbana;
• criaram-se órgãos e instâncias técnicas de planejamento metropolitano.
Contudo, o coração do plano — a contenção efetiva do crescimento urbano e da concentração populacional — fracassou.
O que não funcionou (e por quê)
Na prática, três forças se impuseram ao PMDI:
• mercado imobiliário, que avançou sobre periferias e áreas ambientalmente frágeis;
• a imigração contínua, alimentada pela desigualdade regional brasileira;
• a ausência de políticas habitacionais robustas, empurrando milhões para a informalidade.
O Estado planejava, mas não enfrentava o conflito central: o acesso à terra urbana. Sem controle fundiário, sem política massiva de moradia popular e sem articulação real entre municípios, o crescimento seguiu seu curso.
A descentralização econômica ocorreu de forma seletiva; a descentralização populacional, não. São Paulo continuou crescendo — e se espalhando.
Os resultados históricos
Cinco décadas depois, o balanço é claro:
• a Grande São Paulo tornou-se uma das maiores metrópoles do mundo;
• a desigualdade socioespacial se aprofundou;
• a dependência do transporte individual se consolidou.
Problemas previstos em 1971 — mobilidade, saneamento, poluição — tornaram-se crônicos.
O PMDI não foi inútil. Ele deixou mapas, diagnósticos, conceitos e alertas. Mas também se tornou um símbolo recorrente da história urbana brasileira: planos sofisticados diante de realidades sociais que o Estado não quis — ou não conseguiu — transformar.
Conclusão: planejar sem enfrentar o conflito
O recorte de 1971 revela um momento em que o poder público sabia exatamente o que estava acontecendo e o que poderia acontecer. O fracasso não foi de informação, mas de decisão política.
Descentralizar era, de fato, a meta.
Mas crescer sem limites acabou sendo o destino.
Hoje, ao revisitar o PMDI, fica a pergunta incômoda: quantos dos dilemas urbanos atuais já estavam claramente anunciados — e quantos continuam sendo tratados apenas como problemas técnicos, quando são, na essência, problemas sociais e políticos?
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