Recortes de Página: 1976 - A abertura controlada e o medo da Constituinte

Na edição de 5 de setembro de 1976, O Estado de S. Paulo trouxe, lado a lado com denúncias ambientais de grande impacto, um retrato claro — ainda que cauteloso — da disputa política  quanto a normalização democrática. O título é direto: “Geisel não aceita a tese da Constituinte”. O conteúdo, porém, revela muito mais do que uma simples divergência institucional.
Estamos no coração do governo Ernesto Geisel, fase conhecida como “abertura lenta, gradual e segura”. A expressão, repetida à exaustão pelos porta-vozes do regime, escondia uma realidade mais complexa: a abertura existia, mas sob controle rígido, sem concessões que pudessem ameaçar o núcleo de poder militar.


A Constituinte como ameaça

A reportagem deixa claro que a ideia de uma Assembleia Constituinte era vista com profunda desconfiança pelo Planalto. Não se tratava apenas de uma questão jurídica, mas de controle político. Uma Constituinte significaria abrir espaço para:
participação mais ampla da oposição
revisão de regras eleitorais
questionamento dos Atos Institucionais
risco de perda do comando do processo político
Geisel, segundo o jornal, rejeita explicitamente qualquer fórmula que leve à Constituinte, insistindo que as mudanças deveriam ocorrer dentro da Constituição vigente, ou seja, por emendas controladas pelo próprio regime.


Arena, MDB e o jogo eleitoral

O texto também revela algo crucial: a preocupação com as eleições de 1978, especialmente nos grandes estados, como São Paulo. Embora o governo não estimulasse abertamente reformas profundas, também não podia ignorar o crescimento do MDB e o desgaste do regime.
A Arena, partido governista, apostava na manutenção das regras existentes, enquanto a oposição pressionava por mudanças mais amplas. A abertura, portanto, não era um consenso — era um campo de batalha político, travado nos bastidores, nos editoriais e nas entrelinhas da imprensa.


A lógica do “deixar correr”

Um dos aspectos mais reveladores da reportagem é o tom: não há ruptura anunciada, nem fechamento explícito. O que existe é a estratégia de “deixar o processo correr”, esperando que o tempo, o controle institucional e a fragmentação da oposição garantissem a transição sem riscos.

A recusa à Constituinte não era apenas institucional. Era o reflexo de um Estado que temia perder o comando justamente quando suas contradições começavam a emergir com mais força.


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