Recortes de Página: Dois mortos, duas narrativas

O enterro de um empresário, a execução de um militante e a engrenagem silenciosa da repressão (São Paulo, 1971)


Na edição de 17 de abril de 1971, O Estado de S. Paulo apresentou aos leitores um contraste revelador — ainda que não explícito. De um lado, a cobertura extensa, solene e quase litúrgica do enterro de Henning Albert Boilesen, presidente do poderoso Grupo Ultra. De outro, em notas duras e rápidas, a notícia da morte de um homem apontado como participante do atentado que vitimara o executivo.
O jornal não os coloca lado a lado por acaso. A justaposição constrói uma hierarquia de vidas, lutos e memórias — e revela, nas entrelinhas, o funcionamento do aparato repressivo em seu auge.


O funeral como demonstração de ordem

A matéria intitulada “O hino de Boilesen rompe o silêncio” descreve o enterro do empresário como um acontecimento público de grande envergadura. Autoridades civis, representantes militares, empresários e figuras do establishment paulista acompanham o cortejo. O tom é respeitoso, grave, quase cerimonial.
Nada ali é apenas privado. O funeral transforma-se em ato político, uma encenação da continuidade da ordem em meio à violência política dos chamados “anos de chumbo”. O Estado comparece, visível e organizado, para sinalizar que a morte de um de seus aliados não abalaria suas estruturas.
Boilesen é apresentado como:
• empresário exemplar;
• homem de família;
• vítima da “subversão”.
Não há menção — nem mesmo lateral — às relações do executivo com o aparato repressivo, hoje amplamente documentadas por testemunhos, investigações históricas e relatos de ex-presos políticos.


O que não se diz sobre Boilesen

Assassinato do empresário Henning Albert Boilesen em 15 de abril de 1971, em São Paulo
 Cena do assassinato empresário Henning Albert Boilesen em São Paulo, no dia 15 de abril de 1971

À época, já circulavam informações, ainda que restritas, de que Henning Boilesen financiava operações do DOI-CODI, 
contribuía com recursos para manutenção de centros de repressão,   além de
manter relações próximas com oficiais responsáveis por interrogatórios e torturas.
Esses elementos não aparecem no jornal. Não por ignorância, mas por impossibilidade política. O silêncio é parte da engrenagem.
O empresário morto é enquadrado como vítima pura, desprovida de contexto, descolada da violência estrutural da qual participava.


Joaquim Alencar de Seixas: o homem por trás do rótulo

A narrativa oficial construída em torno da morte de Joaquim Alencar de Seixas seguiu o padrão já consolidado pelo aparato repressivo: reduzir um sujeito histórico e complexo à condição abstrata de “terrorista abatido”. Essa simplificação não foi casual. Ela era necessária para justificar o método.
Contudo, a documentação posterior, os testemunhos reunidos ao longo das décadas e o próprio perfil biográfico de Joaquim desmontam essa versão.
Joaquim Alencar de Seixas não era um criminoso comum. Não vivia à margem da sociedade nem fora dela. REra trabalhador, pai de família, homem inserido no cotidiano civil, cuja opção pela militância política se deu em um contexto de fechamento completo das vias democráticas.
Como muitos militantes da época, integrava um grupo tático da guerrilha urbana, estrutura que combinava militância política, ações de propaganda armada e tentativas — muitas vezes improvisadas — de resistência ao regime instaurado em 1964.
Sua militância não o desumanizava. Ao contrário: coexistia com sua vida familiar, sua profissão e suas responsabilidades cotidianas.


A prisão: não houve confronto



A versão divulgada à época sugeria perseguição, troca de tiros e morte em combate. Essa narrativa, no entanto, não se sustenta à luz do que hoje se conhece.
Joaquim foi preso com vida.
Não há registros confiáveis de confronto armado no momento de sua captura. Testemunhos posteriores indicam que ele foi detido em circunstâncias controladas, levado sob custódia para instalações do aparato repressivo e submetido a interrogatórios.
A partir desse ponto, o Estado deixa de registrar — e começa a ocultar.
A morte de Joaquim Alencar de Seixas não foi resultado de um excesso isolado, mas parte de um sistema. O DOI-CODI e estruturas similares operavam sob a lógica de que o militante político não era um réu, mas um inimigo interno.
Nessa lógica:
• a prisão não visava julgamento;
• o interrogatório não buscava apenas informação;
• a tortura não era exceção, mas método.
Joaquim foi submetido a sessões de tortura prolongadas, cujo objetivo ia além da obtenção de dados. Tratava-se de quebrar o indivíduo física e psicologicamente, transformando seu corpo em mensagem — tanto para seus companheiros quanto para a sociedade.
Seu suplício foi silencioso, invisível ao público, protegido por muros institucionais e pelo silêncio cúmplice da época.


O apagamento como segunda morte

Talvez o aspecto mais cruel do caso de Joaquim Alencar de Seixas não tenha sido apenas sua execução, mas o apagamento deliberado de sua biografia.
Ao negar-lhe nome, história, vínculos afetivos e motivações políticas, o regime produziu uma segunda morte — simbólica.
Recuperar quem ele foi não significa absolver ações armadas nem idealizar a luta clandestina. Significa restituir complexidade histórica a um período que o autoritarismo tentou reduzir  a slogans como “ordem”, “segurança” e “paz social ”.


Conclusão: memória contra a versão única

A história de Joaquim Alencar de Seixas nos obriga a encarar uma verdade incômoda:
o Estado brasileiro, naquele período, não apenas reprimiu, mas executou — e depois mentiu.
Enquanto Henning Boilesen foi lembrado como vítima exemplar, Joaquim foi transformado em nota de rodapé. Um teve funeral público; o outro, versão oficial.
Revisitar esse caso não é um exercício de revanchismo, mas de responsabilidade histórica. Porque regimes autoritários não sobrevivem apenas pela força — eles sobrevivem pelo controle da memória.
E é justamente esse controle que artigos como este procuram romper.




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