Recortes de Página: O preço da fiscalização - os excessos na construção do suntuoso prédio Tribunal de Contas do Município de São Paulo em 1976
Na edição de 5 de setembro de 1976, O Estado de S. Paulo dedicou uma página inteira a uma denúncia incômoda: o custo exorbitante da construção da sede do Tribunal de Contas do Município de São Paulo (TCM). Um órgão criado para fiscalizar os gastos do Executivo municipal tornava-se, ele próprio, símbolo de desproporcionalidade no uso de recursos públicos.
A reportagem expõe uma contradição central da administração pública brasileira da época — e que permanece atual: quem fiscaliza o gasto também precisa ser fiscalizado.
Um prédio monumental, um custo fora de escala
O jornal revela que o edifício do TCM, localizado no Parque do Ibirapuera, já havia atingido a marca de 100 milhões de cruzeiros, valor considerado altíssimo para os padrões da época. O projeto arquitetônico, descrito como sinuoso e sofisticado, destoava não apenas do entorno, mas também da função essencialmente técnica do órgão.
Não se tratava apenas de um prédio administrativo. O texto descreve:
"acabamentos caros
soluções arquitetônicas complexas
custos crescentes e sucessivos aditivos e
demora na conclusão da obra".
Tudo isso em um contexto de restrições orçamentárias, carência de serviços básicos e forte desigualdade urbana.
O fiscalizador sob suspeita
O aspecto mais sensível da reportagem está no fato de que o TCM era — e é — responsável por julgar as contas do próprio Executivo municipal. A matéria aponta o desconforto institucional gerado quando um órgão dessa natureza passa a consumir recursos em escala semelhante (ou superior) à de obras diretamente voltadas à população.
Ainda que o texto evite acusações diretas, fica claro o tom crítico:
"como justificar tamanha despesa em nome da fiscalização, quando a própria fiscalização parece falhar internamente?"
A reportagem deixa claro que não havia ilegalidade formal comprovada. O problema era outro: a legitimidade do gasto. Em plena ditadura militar, quando o discurso oficial exaltava eficiência administrativa, racionalidade técnica e combate ao desperdício, o prédio do TCM surgia como um exemplo desconfortável de distanciamento entre discurso e prática.
A crítica publicada pelo jornal é cuidadosa, técnica, baseada em números e documentos — uma estratégia típica da imprensa naquele período, que precisava contornar os limites impostos pela censura institucionalizada.
Arquitetura, poder e simbolismo
Há ainda uma leitura simbólica importante. O edifício monumental não era apenas funcional; ele comunicava poder, estabilidade e permanência. Em um regime preocupado com sua imagem institucional, prédios públicos grandiosos funcionavam como marcos visuais da autoridade do Estado, mesmo quando isso significava custos excessivos.
Nesse sentido, a sede do TCM dialoga com outras grandes obras do período: estradas, hidrelétricas, projetos urbanos e edifícios administrativos que buscavam afirmar modernidade, ainda que à custa de desequilíbrios sociais e orçamentários.
Nesta materia, não se fala em corrupção de forma explícita, não se apontam responsáveis diretos, não se usam termos contundentes. Ainda assim, a crítica está ali — clara para quem sabe ler.
Ao expor números, prazos e comparações, o jornal cumpre um papel fundamental: registrar o desconforto institucional de uma sociedade que começava a questionar os excessos do Estado, mesmo sob um regime autoritário.
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