Recortes de Página: O Roteiro das Notas de Rodapé: A "Fuga" que Escondia o Calabouço


 Na edição de 19 de julho de 1973, uma pequena nota de coluna no Estadão cumpria um papel burocrático da ditadura militar brasileira. O título, "Terrorista morre ao tentar fugir".


Quem pesquisa os arquivos da repressão sabe que essa frase funcionava como um carimbo para encerrar assuntos que o regime não queria explicar.
​A nota detalha a morte de Helber José Gomes Goulart, militante da ALN (Aliança Libertadora Nacional), no Monumento do Ipiranga, em São Paulo. O texto é cirúrgico ao empilhar adjetivos e codinomes:  Helber usava quatro nomes falsos e era acusado de uma lista extensa de crimes, de assaltos a supermercados ao assassinato de um comerciante na Mooca.
​Essa estrutura tinha um objetivo claro: desumanizar a vítima. Ao apresentar uma ficha criminal exaustiva antes mesmo de explicar as circunstâncias da morte, o texto convencia o leitor da época de que o "abatido" era um elemento irrecuperável, tornando a sua morte um evento de "higiene pública" e não um crime de Estado.


​Quem era Helber José Gomes Goulart?

​Para o leitor de 1973, Helber era apenas um emaranhado de codinomes: Acrisio, Valter, Euclides e Egberto. Mas, por trás da "ficha policial" descrita na nota, havia a trajetória de um jovem mineiro de Belo Horizonte que, como tantos outros, viu na militância política uma resposta ao fechamento democrático. Helber era bancário e estudante. Sua migração para a luta armada na ALN (Aliança Libertadora Nacional) ocorreu em um período onde os canais de diálogo político estavam selados pela censura e pelo AI-5.
​A nota de jornal o acusa de uma série de crimes, desde assaltos a supermercados até homicídios de médicos e policiais. Historicamente, sabe-se que muitas dessas acusações eram infladas ou fabricadas para garantir que a opinião pública não sentisse empatia pelo "terrorista" abatido.
​O Desfecho Real: Helber tinha apenas 29 anos quando foi morto. Anos depois, investigações da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) indicaram que a versão de "tiroteio no Ipiranga" apresentada pelo DOI-CODI e replicada fielmente pelo jornal era insustentável. As marcas no corpo e a trajetória das balas sugeriam uma execução à queima-roupa, e não um confronto aberto em fuga.


A Gramática do Encobrimento

​O termo "tentativa de fuga" tornou-se, anos mais tarde, um dos maiores eufemismos da nossa história. Hoje, com o acesso aos relatórios da Comissão Nacional da Verdade, sabemos que Helber não morreu simplesmente em um tiroteio fortuito perto do museu.
​Relatórios e testemunhos posteriores indicam que o cerco a militantes naquele período seguia um padrão de emboscada ou, em muitos casos, a morte ocorria sob tortura nas dependências do DOI-CODI, sendo o "tiroteio na rua" encenado posteriormente para justificar o cadáver. A nota de jornal era a peça final desse teatro: ela oficializava a mentira para que a família não pudesse reclamar o corpo sem o selo de "terrorista".


O que o papel não dizia

​Ao ler esse recorte, o que mais grita é o que está omitido: ​a ausência de perícia independente: O jornal apenas reproduzia o relatório do "Serviço Local" e o silêncio sobre as torturas: Em 1973, o Brasil vivia o auge do governo Médici. O silêncio sobre o que acontecia nos porões era garantido pela censura prévia dentro das redações.


​Por que revisitar essa nota?

​Revisitar a morte de Helber José Gomes Goulart através deste recorte não é apenas um exercício de memória política, mas um alerta sobre como a linguagem pode ser usada para mascarar a violação de direitos.
Você já tinha reparado como o termo "morreu ao tentar fugir" era recorrente nos jornais dos anos 70?  Esse tipo de linguagem ainda sobrevive em alguns boletins de ocorrência hoje em dia? Comente sua percepção









 

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