“Medidas corajosas” ou choque inevitável?
Na edição de 8 de dezembro de 1979, o governo do presidente João Figueiredo apresentou ao país um pacote de nove medidas econômicas que incluía a maxidesvalorização do cruzeiro, redução de subsídios ao crédito, estímulos às exportações e restrições às importações. No discurso oficial, tratava-se de um conjunto de ações “corajosas”, necessárias para conter a inflação e reequilibrar as contas externas do Brasil.
A narrativa governamental buscava transmitir a ideia de ajuste responsável diante de uma economia pressionada pela alta do petróleo, pelo crescimento da dívida externa e pelo desequilíbrio na balança de pagamentos. O objetivo declarado era duplo: estimular as exportações e reduzir a dependência de importações, sobretudo de petróleo e bens industriais. Nos bastidores, porém, a forma como o pacote foi apresentado revelou o tom duro que marcaria o início da década de 1980. O então ministro do Planejamento, Delfim Netto, considerado o principal formulador da estratégia econômica, reagiu com ironia às críticas de setores que seriam diretamente atingidos pelas medidas. Sua resposta — de que “não adianta ficar triste; temos de ajustar o país às novas estruturas da economia mundial” — sintetizava a visão tecnocrática dominante no governo.
Para muitos empresários e analistas da época, aquela declaração deixava claro que o ajuste não seria indolor. A desvalorização cambial encareceria importações, pressionaria custos industriais e alimentaria novas rodadas inflacionárias. Ainda assim, para a equipe econômica, tratava-se de um choque considerado inevitável diante das mudanças no cenário internacional.
O recorte de primeira página da edição de 08 de dezembro de 1979 do Estadão captava, portanto, um momento decisivo: o instante em que o governo tentava transformar um duro ajuste cambial em narrativa de coragem política, enquanto o próprio arquiteto das medidas sinalizava que o país entrava em um período de sacrifícios econômicos.
O choque cambial que redefiniu a economia
Menos de quatro meses após a saída de Mário Henrique Simonsen, o governo Figueiredo anunciava aquele que seria um dos mais dramáticos e controversos pacotes econômicos da história brasileira: a maxidesvalorização de 30% do cruzeiro, transmitida em cadeia nacional de rádio e televisão na noite de 7 de dezembro de 1979.
O pronunciamento de 38 minutos do presidente João Baptista Figueiredo não era apenas um ajuste técnico. Era o reconhecimento público de que a política de minidesvalorizações cambiais, cultivada como bandeira de estabilidade desde 1968, já não dava conta da nova realidade. E mais: era a consolidação da vitória da ala desenvolvimentista sobre a ortodoxia representada por Simonsen — ainda que o pacote, contraditoriamente, carregasse elementos ortodoxos em seu bojo.
O pacote: Nove medidas para conter a tempestade
A edição de 8 de dezembro de 1979 detalha, com precisão cirúrgica, as nove medidas anunciadas pelo presidente:
1. Maxidesvalorização
Cruzeiro desvalorizado em 30%; dólar passa a Cr$ 42,33 (compra) e Cr$ 42,55 (venda), o choque cambial de proporções inéditas.
2. Redução de subsídios
Nível mínimo de qualquer taxa subsidiada não poderá ser inferior à correção monetária, marcando o fim dos subsídios reais negativos.
3. Fim dos incentivos às exportações
Eliminados todos os incentivos fiscais, inclusive o crédito-prêmio do IPI, em que exportadores perdem benefícios históricos.
4. Fim dos depósitos prévios
Extintos o depósito prévio sobre importações e o depósito para viagens ao exterior com a liberação de cruzeiros retidos.
Eliminada a exigência de produto nacional similar para barrar importações para abertura seletiva às importações.
6. Imposto de exportação
Restabelecido e ampliado para produtos primários a fim de desestímular as exportações não essenciais.
7. Contenção de importações públicas Importações do setor público (exceto estatais estratégicas) limitadas a 80% do valor de 1979. Economia superior a US$ 200 milhões.
8. Congelamento da Resolução 432, em vigor desde 1977, que significava recursos em moeda estrangeira no Banco Central congelados, liberações restritas e controle sobre capitais especulativos.
9. Redução do IR sobre remessas Imposto de Renda sobre remessa de juros cai de 12,5% para 1,25% a fim de estímular a captação de recursos externos.
A justificativa oficial: "A recessão está inteiramente afastada de meus propósitos"
O discurso de Figueiredo, reproduzido nas páginas do jornal, revela a ambiguidade fundamental do pacote. Ao mesmo tempo em que anunciava um choque cambial tipicamente ortodoxo, o presidente fazia questão de afirmar:
"A recessão econômica está inteiramente afastada de meus propósitos, mas, para evitá-la e alcançar os objetivos do desenvolvimento econômico e social, é imperioso debelar a inflação."
A frase é uma síntese do dilema que atormentava o governo: como combater a inflação sem provocar recessão? A resposta, no pacote de dezembro, era tentar equilibrar-se sobre uma linha tênue: desvalorizar para estimular exportações e ajustar as contas externas, mas manter o pé no acelerador do crescimento.
Sobre a maxidesvalorização em si, Figueiredo admitiu, com franqueza incomum: "Talvez já devêssemos ter promovido há alguns meses." O reconhecimento tácito de que o governo hesitara diante da medida necessária — e agora pagava o preço da demora.
O Conselho Monetário Nacional, em nota oficial, buscou explicar os fundamentos técnicos: "O resultado de 30% coloca o nível da taxa de câmbio em condições de estimular as exportações e desestimular importações, ou seja, buscar o equilíbrio na balança comercial."
A dimensão política: Quatro meses depois de Simonsen
A maxidesvalorização de dezembro de 1979 precisa ser lida à luz do que acontecera em agosto. Com a saída de Simonsen, o governo sinalizara a opção pelo populismo e pelo desenvolvimentismo. No entanto, o pacote de dezembro contradizia essa narrativa em vários pontos:
• Maxidesvalorização de 30%: ortodoxa (ajuste de preços relativos). Esta medida, compensada por subsídios e deduções. Na prática, anularia parte do ajuste.
• Fim dos incentivos fiscais: ortodoxa (eliminação de distorções).
• Estímulo à entrada de capitais: ortodoxa (abertura financeira).
• Contenção de importações públicas: desenvolvimentista (proteção setorial), pois mantém exceções regionais e setoriais.
• Redução do IR sobre remessas: ortodoxa (atração de capitais) o que, no sentido prático, estimularia o endividamento externo, pressionando a inflação.
• Amparo às empresas endividadas: Heterodoxa (proteção setorial). Cria "colchão" que impede o ajuste pleno.
O pacote era, portanto, híbrido — um reflexo das forças contraditórias que agora ocupavam o governo. A ortodoxia ganhava no câmbio; o desenvolvimentismo, na proteção ao setor público; o populismo, no fim dos depósitos para viagens (medida popular, mas fiscalmente irrelevante).
O eco político: vozes da crise
A edição de 8 de dezembro não trouxe apenas o anúncio oficial. Trouxe também as primeiras reações da classe política — um termômetro precioso para entender como o pacote era recebido.
Jarbas Passarinho (líder do governo) adotou tom realista: "As empresas estatais vão gritar diante dos efeitos das novas medidas, pois certamente vão se considerar prejudicadas durante os próximos anos." A declaração, vinda de um porta-voz oficial, indicava que o próprio Planalto tinha clareza de que as medidas seriam mal recebidas dentro da máquina estatal.
Tarcísio Neves (Arena) foi mais incisivo: "Se estivesse no governo, não teria permitido que a inflação e a crise econômica atingissem a escala atual." A frase revelava que o desgaste do governo já alcançava suas próprias fileiras.
Antonio Martz (Arena-PB) disparou a crítica mais contundente: "Lamento que o presidente Figueiredo mais uma vez tenha caído na armadilha dos economistas e do economismo. Basta de fazer do País a cobaia permanente das experiências e das desvantagens impostas aos governantes." O termo "economismo" expressava a frustração da ala política com a perpetuação do poder dos técnicos.
Antônio Carlos Magalhães (governador da Bahia) adotou tom conciliatório: "A chegada ao momento de todos os segmentos da sociedade, e não apenas as camadas mais pobres, será fundamental para a construção de um futuro melhor."
José Costa (PMDB-AL) associou o pacote ao FMI: "O FMI, diante do desespero do governo como um todo para equacionar e resolver os problemas econômicos e sociais, conseguiu, oficialmente, impedir que as empresas do mercado internacional..." A associação com o Fundo era uma forma de deslegitimar as medidas.
O quadro era preocupante para o Planalto: a maioria das vozes da própria base aliada era de descontentamento ou crítica. O governo anunciava o maior pacote econômico desde o início do mandato e, em vez de colher apoio, colhia desconfiança e ataques de seus próprios correligionários.
O amparo às empresas: a rede de proteção
Na esteira do anúncio, o governo tratou de administrar os estilhaços que a medida inevitavelmente produziria. Em entrevista coletiva concedida pelos ministros da área econômica, Delfim Netto — já assumindo o protagonismo — revelou os mecanismos de compensação:
• Amparo financeiro: reserva de parte dos recursos arrecadados com o Imposto de Exportação sobre produtos agrícolas e minérios e transferência destes recursos do setor exportador para empresas endividadas.
• Dedução fiscal: empresas poderão contabilizar o aumento dos empréstimos externos como "prejuízos de câmbio" e abatê-los do lucro tributário nos próximos dois exercícios como perda de receita do Tesouro, classificada pelo próprio Delfim de "subsídio do governo às empresas".
A contradição era flagrante: o governo desvalorizava o câmbio em 30%, mas, ao mesmo tempo, criava mecanismos para que as empresas não sentissem integralmente o impacto — anulando parte do ajuste pretendido.
Sobre o impacto inflacionário, Delfim tentou minimizar: "O efeito líquido será bastante pequeno. Vai ser crítico para alguns produtos, mas é pouca coisa" — ironizou. A história mostraria que a inflação de 1979/1980 não seria tão complacente com seus cálculos.
Karlos Rischbieter, o "xerife da inflação" nomeado por Simonsen, aparecia na coletiva como figura apagada, quase decorativa. Sua fala mais relevante foi uma defesa institucional: "A mudança na administração dos problemas econômicos do País mostra, como o presidente Figueiredo disse, toda a coragem do governo em combater a inflação e obter o equilíbrio no balanço de pagamentos." O contraste com a desenvoltura de Delfim era gritante — um prenúncio do que viria em janeiro.
Ernane Galvães (Banco Central) explicou a redução do IR sobre remessas de juros: "Aliviar o ônus financeiro sobre os tomadores, já que eles sofrerão com a maxidesvalorização, e tendo em vista a necessidade de financiamento do balanço de pagamento." A medida revelava a dança contraditória do governo: desvalorizava para conter importações, mas estimulava a entrada de capitais que pressionariam a base monetária.
Camilo Penna (Indústria e Comércio) defendeu o fim da Lei de Similaridade com um dado: a indústria nacional já fornecia 80% dos bens de capital. E resumiu o espírito da mudança com uma frase emblemática: "Com esta nova política, à exceção dos produtores nortistas e nordestinos, ninguém mais vai ser sócio da inflação."
O outro lado da moeda: As vozes do mercado
Enquanto o governo anunciava seu pacote com pompa, o mercado financeiro começava a processar as consequências.
David Hutchinson (Banco de Londres) apontou uma contradição central: "A eliminação da Resolução 432 e a maxidesvalorização cambial deverão dificultar a entrada de recursos externos no País a partir do próximo ano." Ao mesmo tempo em que reduzia o IR sobre remessas (estímulo), o governo extinguia um dos instrumentos mais atraentes para investidores estrangeiros.
Pertence de Lopes (presidente da Bolsa do Rio) ofereceu uma das imagens mais poderosas do período: "O que se pode perguntar é se, após termos vivido durante muito tempo num panorama extremamente artificial, com subsídios de um lado e depósitos compulsórios de outro, esse remédio poderá agora ser facilmente absorvido por uma economia doente." A metáfora era cristalina: o Brasil era um paciente gravemente enfermo, e o governo acabava de aplicar um choque terapêutico. O remédio era o correto, mas a pergunta que ficava era se o organismo resistiria.
Leandro Mello Brandão (Sindicato dos Bancos de SP) previu a transferência de riscos: "Os bancos só vão trazer recursos externos em operações casadas... Os riscos cambiais, até agora neutralizados pela 432, terão que ser assumidos pelas empresas."
O fantasma de Simonsen
Naquela mesma edição do dia 08, a reação do ex-ministro Mário Henrique Simonsen, agora recolhido à Fundação Getúlio Vargas:
"Simonsen disse não achar recomendável tecnicamente uma maxidesvalorização do cruzeiro, mas não quis estar de seus comentários aos jornalistas."
A frase é ambígua propositalmente. Simonsen, que sempre defendera o gradualismo cambial, via na maxi um choque desnecessário e potencialmente danoso. Mas, como bom scholar, evitou críticas diretas ao governo que acabara de deixar.
Mais revelador foi seu comentário sobre o efeito nas multinacionais: "A desvalorização do dólar em relação ao cruzeiro gerou o aumento do valor das dívidas em moeda estrangeira. Então — no seu entendimento — a maxidesvalorização do governo conseguiria convencer as multinacionais a converterem seus empréstimos em capital de risco." Simonsen apontava para um dos objetivos não declarados do pacote: forçar a conversão de dívidas externas em investimento direto.
Por fim, voltou a um tema que lhe era caro: os expurgos no Índice de Preços por Atacado (IPA) — mais uma crítica velada à manipulação estatística que, em sua visão, maquiava a realidade inflacionária.
A reação do empresariado
A maxidesvalorização do cruzeiro anunciada em dezembro de 1979 pelo governo do presidente João Figueiredo, sob orientação da equipe econômica liderada por Delfim Netto, provocou forte repercussão entre os principais representantes da indústria brasileira.
Entre empresários ligados à indústria de base e de transformação, a medida foi recebida com ambivalência. De um lado, setores exportadores viram na desvalorização uma oportunidade para ampliar competitividade no mercado externo, já que seus produtos passariam a ter preços mais favoráveis em dólar. De outro, empresários voltados ao mercado interno temiam os efeitos colaterais da medida, sobretudo o impacto inflacionário decorrente do encarecimento de insumos importados.
O industrial Antônio Ermírio de Moraes, figura central do empresariado paulista e dirigente do Grupo Votorantim, expressou preocupação com a necessidade de preservar a estabilidade produtiva em meio à turbulência cambial. Para ele, medidas abruptas poderiam gerar distorções no planejamento industrial e ampliar a incerteza entre investidores.
Já o então dirigente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), Mário Amato, destacou que a desvalorização deveria ser acompanhada de políticas industriais e comerciais capazes de evitar desequilíbrios entre setores da economia. Em especial, industriais passaram a defender mecanismos de compensação — como ajustes tarifários e incentivos à produção nacional — para neutralizar os efeitos da alta dos custos de importação.
A reação do empresariado refletia, portanto, o clima de transição econômica do final da década de 1970: o país entrava em um período marcado por inflação crescente, crise externa e reorientação da política cambial. A maxidesvalorização não foi apenas uma decisão técnica — tornou-se também um divisor de águas nas relações entre governo e setor produtivo.
Dezembro de 1979: quando a crise chegou ao cotidiano
No final de 1979, o Brasil atravessava um momento de forte tensão econômica. As medidas anunciadas pelo governo do presidente João Figueiredo, formuladas pela equipe do ministro Delfim Netto, não eram apenas um debate de gabinete ou de economistas: seus efeitos começaram a ser percebidos rapidamente no cotidiano da população.
A inflação já vinha acelerando ao longo do ano e corroía o poder de compra dos salários. Em supermercados e armazéns, a prática de remarcar preços com frequência tornava-se cada vez mais comum. Produtos básicos, como arroz, feijão, óleo e carne, apresentavam aumentos sucessivos, obrigando famílias a reverem hábitos de consumo. Para muitos trabalhadores urbanos, o salário recebido no início do mês já não tinha o mesmo valor semanas depois.
A maxidesvalorização do cruzeiro agravou esse ambiente de incerteza. Como grande parte da indústria brasileira dependia de insumos importados — desde fertilizantes até componentes industriais — o encarecimento do dólar rapidamente se traduzia em custos maiores de produção, que acabavam sendo repassados aos preços finais.
Outro reflexo visível estava nos combustíveis e no transporte. O impacto das crises do petróleo da década de 1970 ainda pesava sobre a economia brasileira, altamente dependente de importações de energia. A elevação dos custos energéticos atingia desde o transporte público até o preço do frete de mercadorias, ampliando o efeito inflacionário em cadeia.
No mercado de trabalho, o clima também era de apreensão. Empresários temiam a retração do consumo e a alta dos custos, enquanto trabalhadores organizados pressionavam por reajustes salariais mais frequentes para compensar a perda inflacionária. Greves e mobilizações sindicais tornavam-se mais frequentes em diversos centros industriais.
Para a população comum, aquele dezembro simbolizava o início de uma nova fase econômica. Depois dos anos de crescimento acelerado do chamado “milagre econômico”, o país entrava em um período marcado por inflação persistente, endividamento externo e ajustes sucessivos — sinais de uma década de 1980 que ficaria conhecida, posteriormente, como um dos períodos mais difíceis da história econômica brasileira.
O balanço: Um tiro que tentou acertar dois alvos
O pacote era, assim, um híbrido conceitual — meio ortodoxo, meio desenvolvimentista; meio ajuste, meio proteção. Tentava agradar a todos e, ao fazê-lo, corria o risco de não resolver nada.
A frase de Pertence de Lopes — "o remédio pode ser muito forte para um organismo debilitado" — sintetiza o dilema que o governo enfrentaria em 1980. A maxidesvalorização era o choque necessário, mas seus efeitos colaterais (inflação mais alta, endividamento externo mais caro, escassez de capitais) logo se fariam sentir.
E, como veremos na Parte 3, o primeiro a sentir o peso desses efeitos seria Karlos Rischbieter — o "xerife" sem poderes, que em janeiro de 1980 deixaria o governo, consumando a virada desenvolvimentista e abrindo caminho para a hegemonia absoluta de Delfim Netto na condução da economia brasileira.
O remédio fora aplicado. Agora restava saber se o paciente sobreviveria — e quem pagaria a conta.
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