A CRISE BRASILEIRA DE 1979, PARTE 3 - A saída de Karlos Rischbieter e o enterro da ortodoxia
"Em benefício da unidade": A queda do último xerife
Na tarde de 14 de janeiro de 1980, enquanto os ministros se reuniam para homenagear o aniversário do presidente João Figueiredo, um encontro paralelo selava o destino da política econômica brasileira. Por volta das 15 horas, o ministro da Fazenda, Karlos Rischbieter, entregava ao chefe do Gabinete Civil, general Golbery do Couto e Silva, sua carta de exoneração.
O pedido chegava às mãos de Figueiredo no dia de seu aniversário — um presente amargo que o próprio presidente classificaria, horas depois, como "o pior presente de aniversário que poderia ter recebido".
Menos de cinco meses após a saída de Mário Henrique Simonsen, e apenas 38 dias depois da maxidesvalorização de 30% do cruzeiro, o governo perdia seu último representante da ortodoxia econômica. A alegação oficial, estampada na manchete do jornal no dia seguinte, era tão elegante quanto reveladora: Rischbieter pedia exoneração "em benefício da unidade de orientação da política econômica".
Aquele governo começara com uma equipe econômica teoricamente equilibrada: Simonsen no Planejamento, Rischbieter na Fazenda, Delfim na Agricultura.
Menos de um ano depois, a equipe era irreconhecível:
- Agosto de 1979: Simonsen deixava o governo, derrotado pela guinada populista
- Dezembro de 1979: a maxidesvalorização de 30% tentava conciliar ortodoxia e desenvolvimentismo, mas já sob a batuta de Delfim
- Janeiro de 1980: Rischbieter, o último herdeiro do pensamento de Simonsen, deixava a Fazenda.
A carta e o contexto: A "unidade" como eufemismo
A edição de 15 de janeiro de 1980 do jornal O Estado de S. Paulo reproduz os termos da carta de demissão, na qual Rischbieter justificava sua saída com uma reflexão sobre o exercício do poder:
"Conforme significa uma certa dose de renúncia, especialmente às vontades próprias, mas em benefício do grupo maior, não é mais um ônus."
A frase, de elegância contida, não mencionava nominalmente o ministro do Planejamento, Antônio Delfim Netto. Mas, para quem acompanhava os bastidores do governo, o recado era claro: as "vontades próprias"a que Rischbieter renunciava eram justamente as ideias que defendera desde que assumira a Fazenda em março de 1979 — as mesmas ideias que o tornaram, nas palavras de Simonsen, o "xerife da inflação".
O chefe da Secretaria de Comunicação (Secom), Saíd Farhat, encarregou-se de explicar a versão oficial. Questionado se a saída decorria das "conhecidas divergências entre Rischbieter e Delfim Netto", Farhat desconversou, mas acabou revelando mais do que pretendia ao descrever o papel do ministro do Planejamento:
"O ministro Delfim Netto é chefe da Secretaria de Planejamento da Presidência da República, e como tal, exerce as funções que lhe são delegadas pelo presidente da República, inclusive, como é público e notório, a coordenação da política econômica do governo."
A declaração, aparentemente burocrática, era na verdade uma consagração pública da hegemonia de Delfim. Rischbieter, o titular da Fazenda, não coordenava a política econômica — quem o fazia era o ministro do Planejamento. A subordinação, antes velada, tornava-se explícita.
Delfim Netto, que acumulara imenso poder desde o governo Costa e Silva, tinha um histórico de atritos com ministros que ousavam divergir de suas orientações. Simonsen fora o mais ilustre deles, em agosto de 1979. Agora, Rischbieter juntava-se à lista — não por demissão, mas por um pedido de exoneração que, nos termos da carta, soava como uma "auto-renúncia para evitar o desgaste maior".
Farhat deixava claro que, uma vez tomada a decisão (leia-se: uma vez definida a orientação de Delfim), não havia espaço para dissidências.
A reação de Figueiredo: Tristeza, mas aceitação
O presidente João Figueiredo, surpreendido pelo pedido em pleno dia de aniversário, não teve alternativa senão aceitá-lo. Farhat descreveu sua reação:
"O presidente Figueiredo expressou sua tristeza pessoal diante do pedido de exoneração de Rischbieter, mas não poderia deixar de atendê-lo, pedindo apenas que permanecesse no cargo até que encontrasse um substituto."
A "tristeza pessoal" de Figueiredo contrastava com a frieza da engrenagem política. O presidente podia lamentar a perda de um auxiliar, mas não tinha condições políticas de mantê-lo contra a orientação do homem forte da economia. A política, mais uma vez, venceria a técnica. As decisões econômicas de 1979/1980 não foram tomadas com base na melhor técnica, mas na lógica do poder e da sobrevivência política.
A "unidade" invocada por Rischbieter era, na prática, subordinação. O governo Figueiredo optou por um comando único, personificado em Delfim Netto, e eliminou as vozes dissonantes.
A permanência de Rischbieter até a indicação do substituto, inclusive para presidir a reunião do Conselho Monetário Nacional no dia seguinte, era uma formalidade que não escondia o essencial: o "xerife" estava de saída, e a ortodoxia econômica perdia seu último abrigo no governo.
O prenúncio do futuro
Com Rischbieter fora do governo, a política econômica brasileira entrava em uma nova fase. Delfim Netto, agora sem contrapontos internos, teria liberdade para implementar sua visão desenvolvimentista — uma visão que priorizava o crescimento mesmo às custas da inflação, que estimulava a captação externa mesmo às custas do endividamento, que apostava no Estado como promotor do desenvolvimento mesmo às custas do equilíbrio fiscal.
Esta publicação de 15 de janeiro de 1980 nos permite reconstituir não apenas uma sucessão de fatos, mas a anatomia de uma transição.
Os anos seguintes, como se sabe, seriam marcados pela crise da dívida externa, pela aceleração inflacionária e pelo esgotamento do modelo. Os alertas de Simonsen e Rischbieter — sobre a necessidade de austeridade, sobre os riscos do populismo cambial, sobre os perigos do endividamento descontrolado — mostrariam sua atualidade de forma trágica no decorrer dos anos 80, período historicamente conhecido como a "década perdida", legado das escolhas feitas naqueles meses decisivos.
O balanço de uma gestão - realizações e frustrações
- controle do "open market", isto é, eliminação do sentido especulativo das operações de mercado aberto, redução da volatilidade financeira e do ganho fácil com especulação;
- redução dos subsídios ao crédito rural com a correção de distorções na política agrícola e eliminação de subsídios reais negativos como medida ortodoxa de eliminação de privilégios e racionalização de gastos públicos.
- reforma do sistema financeiro através de ampla reestruturação do setor, com vistas a maior eficiência e controle. Esta propósta encontrara forte resistência do sistema bancário e da ala desenvolvimentista;
- reforma tributária para fortalecimento das receitas estaduais e municipais, cujos obstáculos foram a complexidade política e resistência do governo federal;
- política social e redistribuição de renda pela implantação de mecanismos de justiça fiscal e social, mas que esbarrava na prioridade dada ao crescimento a qualquer custo;
- tributação de heranças e doações. Este projeto elaborado pela Receita Federal, acabou sendo arquivado por causa da pressão de setores beneficiados pela não-tributação;
- política para o Nordeste que abrangia propostas de desenvolvimento regional mais equânime, mas que esbarraria na falta de prioridade política e recursos.


Comentários
Postar um comentário